Gostaria, amigos, de já ter um ótimo causo para lhes contar, ou alguma anedota animada para lhes entreter, ou algum palavreado exótico para lhes informar, mas ocorre de eu me encontrar um bocado cansado, vítima de um primeiro dia de trabalho já intenso, por sua vez precedido por dez horas de voo, cinco de aeroporto e só duas de sono.

Mas o que me impede mesmo de escrever hoje é a emoção, uma grande emoção cheia também de pensamentos ricocheteantes que tento apanhar pelo rabo para transformar numa crônica mas não consigo. É a imensa emoção e honra de estar pisando, desde hoje de manhãzinha, em solo africano pela primeira vez.

De sorte que vou lhes poupar – e a mim mesmo, afinal estou me esforçando para levar a sério essa coisa de pensar o humano, o social, o cultural – de qualquer tentativa de por as impressões em palavras agora.

Vou-lhes ficar devendo a crônica que não redigi, a foto tosca de celular que não tirei, o video mirando minha cara com o sol se pondo no mar desta cidade de Luanda – que ainda não me concedeu licenca para que falasse dela – que não fiz.

Porque qualquer uma dessas coisas, neste momento, seria puro jogo de cena, puro anteprojeto de lixo virtual, puro arremedo de antecipação barata das experiências que ainda hei de vivenciar aqui – e principalmente das que não, haja vista o tiro curtíssimo da estadia. Qualquer coisa dita agora seria só uma bandeira a mais fincada, ainda que virtualmente, sobre este solo, este solo onde tantas bandeiras alheias já foram irremediavelmente fincadas, que não precisa de mais nenhuma.

Volto então na semana que vem, contando alguma coisa. Ou quem sabe nem conte nada, quem sabe o certo seja ver e sentir as coisas daqui, depois guardar tudo calado mesmo dentro de mim.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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