Isaura aprendeu a rezar gente espiando a avó. Ficava pegada nela escutando aquelas palavras emboladas que nasciam coladas umas nas outras como se na ausência do espaço morasse o feitiço. Chegava uma hora em que eram as mesmas repetidas e ela tinha que juntar muita força para continuar prestando atenção e não cair de tontura.

Quando terminava o serviço a avó dava um suspiro fundo e a planta saía murcha parecendo que tudo de ruim que morasse na pessoa tivesse passado pro ramo. Era assim que a avó falava tudo de ruim passou pra planta mas Isaura sabia que a avó também pegava uma parte que ia subindo pelo braço chegava pelo peito e parava na cabeça anuviando a vista. Ela reparava na hora.

Pode dar a paga pra menina que eu não pego em dinheiro, a avó dizia. Isaura recebia o acertado, mas era só o são sair que a avó corria pra lhe tomar as notas e guardava tudo de cadeado numa caixinha.

A menina não sabia bem se gostava de ficar lá acompanhando aquela romaria de gente despinhelada entrar e sair entrar e sair entrar e sair encompridando o tempo do dia. E vez em quando pensava se a avó não estava de fingimento só, porque não mudava o dizer de uma pessoa pra outra, era sempre a mesma repetição embolada, tirando o de impressionar na chegada. Achava mais certo que cada um fosse tratado de uma forma pra que a coisa tivesse serventia.

Uma vez tomou coragem e perguntou por que ela rezava a mesma reza pra tudo que era queixa. A avó se arreliou antes de segredar Isaura tu é pequena ainda e não sabe mas todo mundo tem sempre uma coisa só que é sempre a mesma coisa.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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