Sigo animado a conversar e escrever sobre esse tempo de manifestações, mas hoje resolvi escolher um tema específico, porque 1) sou ignorante na maior parte do que gostaria de falar; e 2) noto que há muita gente – gente muito boa – observando de longe, falando demais, demasiado rapidamente e, por isso, falando bobagem sobre tudo e cada coisa que está acontecendo.

Queria lembrar-lhes uma dicotomia interessante anotada por Milton Santos – que, se estivesse vivo, talvez nos ajudasse a entender melhor o que anda se passando, sem falar como se fosse alguma inteligência ex machina, sem tiradas satíricas do arco-da-velha, sem tratar o leitor comum como criança, como incauto partícipe menor de um inextricável teatro político.

Em “O Espaço do Cidadão”, de 1987, o geógrafo propõe a idéia de que o povo brasileiro teria passado, graças a um longo período de exposição a políticas neoliberais, da condição de “cidadão imperfeito” à de “consumidor-mais-que-perfeito”.

Quer dizer: no Brasil, antes que se consolidasse a formação dos indivíduos enquanto cidadãos, dotados de compreensão profunda das relações sociais e de seus direitos (os individuais e os de viver num país em que todos tenham iguais oportunidades e acesso a serviços), optou-se por impulsionar nossa condição de consumidores – ou seja, indivíduos dotados do direito universal ao consumo e nele justificados; capazes de se mover no sistema, mas não de questionar suas premissas e consequências, que dirá de propor-lhe transformações concretas.

Que acontecia há coisa de 30 anos, na visão de Milton Santos? Na falta de clareza sobre sua condição cidadã – do que se depreende a falta de consciência do poder de ação e transformação que dele decorreriam – tinha-se uma população de consumidores-mais-que-perfeitos – ou seja, consumidores que consumiam qualquer porcaria que se lhes fosse oferecida, e sem reclamar, afinal, devia-se dar graças a deus pela dádiva em si que era poder consumir. Não se tinha o hábito, por exemplo, de reclamar da má qualidade de produtos e serviços, e o Procon… bem, Procon nem bem existia.

O que mudou desde então? Amadurecemos, sem sombra de dúvida, em nossa condição de consumidores. Aprendemos a reclamar dos produtos defeituosos, a registrar queixa contra os serviços deficientes, até a processar quem nos tome por patetas que aceitam levar qualquer gato fajuto, tendo pago por lebre gorda.

Se levarmos isso ao extremo, notaremos que amadureceu também nossa relação de consumo com a política. Não estou confundindo as bolas: é que, num país em que se tem mais valor enquanto consumidor do que enquanto cidadão – num país em que inclusão social, inclusive, se mede pela inclusão na esfera do consumo – , a lógica do consumo torna-se a verdadeira moeda das relações político-eleitorais. Hoje, elege-se quem quer que seja subsumindo um trisquinho de debate de ideias e projetos num eficaz (tanto quanto pobre) pacote marketológico.

Então, em que pese o jogo de aparências pertinente à política desde Maquiavel (desde Aristóteles, alguém me corrigirá), é fato que, na balança que define a adesão popular a candidatos e partidos em momentos eleitorais, a tomada de decisão baseada numa lógica de consumo (e não numa discussão cidadã) tem desequilibrado.

O que pode não ser necessariamente um problema, afinal a política não se estrutura na oposição entre conteúdo e forma, entre idéias e retórica – ao contrário, ela é essas duas coisas, juntas. Mas “o consumidor não é o cidadão”, diria Milton Santos.

De maneira que essa forma de “consumir” política tem sim consequências – que podem ser graves e abrir vácuos de representatividade perigosos – quando os “produtos” político e partido mostram-se “podres” (no primeiro caso) e “defeituosos” (no segundo). Nessa hora, a reação do eleitor-consumidor será (tem sido) a de alguém que comprou um liquidificador que não funciona, ou um quilo de carne estragada: ele irá reclamar, dizer que detectou o defeito, e pedir uma troca (há quem fale em recall); ou, mais ainda, pedirá que alguém por favor invente um novo produto, capaz de lhe satisfazer mais.

Aí, para mim, é onde mora o problema – o perigo – de aceitarmos continuar entendendo a política, e falando dela, com a lógica e a linguagem do consumo – haja vista essa história de recall, esse tipo de palavreado.

Porque o consumidor é, por definição, incapaz de propor, de inventar, de pensar fora da estrutura que lhe é dada. O consumidor, a rigor, não produz, não é talhado nem teria as ferramentas para tanto, se o fosse. O consumidor sabe reclamar – e é desejável que o faça. Mas é preciso ser, mais que consumidor, cidadão para reclamar propondo novas soluções à política; para repudiar os atuais partidos criando um – ou vários – novos; para abominar o atual sistema político inventando um sistema renovado, que saiba a quais problemas deve dar solução. Isso tudo motivado não por mera ingenuidade política, senão pelo esgotamento do atual jeito/sistema de se fazer política.

O desafio de fundo me parece então o de tentar iluminar o entendimento desse momento num sentido que leve à transformação do consumidor mais-que-perfeito no que Milton Santos chamaria consumidor imperfeito: “É necessário que ele seja um verdadeiro cidadão para que o exercício de sua individualidade possa ter eficácia. Onde o indivíduo é também cidadão, pode desafiar os mandamentos do mercado, tornando-se um consumidor imperfeito, porque insubmisso a certas regras impostas fora dele mesmo.”

O desafio é, em vez de desqualificar, de achar os pontos débeis das manifestações que até agora têm ocorrido para mostrar o quanto elas são só “cosquinha” na sola do pé do sistemão, de denunciar, feito mangangão, o quanto fomos uns tolinhos ao ir para as ruas com cartolinas nas mãos; o desafio é contribuir para que a agitação um tanto atabalhoada desse momento se depure, se organize, se encha de informação mais aprofundada, se torne mais consciente de quais e quão complexos são os problemas que motivam tamanha indignação.

Do contrário, seguiremos sendo consumidores – consumidores que pelo menos já reclamam, ok, muito bem. Mas sempre e apenas consumidores – consumidores perfeitos.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos