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Havia uma janela de onde dava para ver o lobisomem. A pequena, à esquerda, logo acima da fornalha. De noite a gente ficava no banco de concreto embaixo da árvore torcendo para ele aparecer, mas não muito, para ele não aparecer. Decididamente, para ter uma visão, não uma prova.

Era sempre só um quadrado amarelo por causa da luz acesa e a culpa só podia ser da lua mirrada. A gente olhava olhava olhava até cansar, até alguém começar a falar alto contando piada proibida, até a briga pela perturbação da vigília, até o grito pedindo silêncio até que alguma coisa lá dentro se mexesse e a gente saísse correndo com o coração na boca sem lembrar de quem ficava pra trás.

O lobisomem trabalhava e morava na padaria e era muito peludo e feio. De longe a pessoa mais feia que havia. De dia diziam que não tinha perigo, mas a gente preferia ficar de longe para não dar nenhuma chance. Ele era bonzinho e perguntava se a gente queria bala — e aí se abria uma exceção, porque não há medo que resista à doces de graça.

O nome dele era João. Ou Luís (minha memória, obra de ficção). Um dia, ele foi embora e nunca mais deu notícias. A janelinha apagada desde então e a vida longamente feita só do que existia.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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