No tempo do mil-e-quinhentos, sertão se escrevia certão. Ou certam. Mas já era o que até hoje ainda é: aquela quentura dos infernos, aquela faltante fartura de tudo na seca.

Naqueles começos de Brasil, como até hoje não deixou de ser, mais fácil que domar o sertanejo a custa de bala era enredá-lo com arte de engano. Àquelas multidões de gente índia, falavam-lhes os capitães portugueses (ou portuguezes) da abundância de peixes e mariscos do mar que no litoral lhes aguardava, e mais da liberdade que havia lá à espera, para eles gozarem. E regalavam aos cabeças das tribos quaisquer trapos de roupa, mais umas ferramentas ruins que sobravam, mais as comidas secas que à mão houvesse.

E então pela via da paz – pois guerrear dava mais trabalho – desabalavam-se aldeias inteiras sob a batuta dos colonizadores, no encalço do litoral. Até chegar na beira da praia, que era quando os donos dos bacamartes davam voz de prisão ao povo índio arreganhando-lhes aquela podridão nojenta que tinham por dentes. E disparavam, e separavam os filhos dos pais, os irmãos das irmãs, as mulheres dos maridos, e levavam-nos cativos para trabalhar em suas recém-formadas fazendas. E nunca mariscos do mar, e nunca mais liberdade.

Falando assim, o leitor pensará que era empreitada fácil. Mas não: o caso é que, para convencer o gentio a caminhar pacífico aquele mundo de léguas, carecia um ardil: era preciso ter na equipe alguém persuasivo, capaz de parlamentar na língua do povo – alguém, via de regra, também índio, ou mestiço.

De sorte que numa entrada dessas – a que teve por chefes Francisco de Caldas e Gaspar Dias de Atayde, em Pernambuco – ofereceu-lhes seus préstimos (não se sabe a troco de que paga) certo Brasso-de-peixe (ou Braço-de-peixe, ou Braço-do-peixe), um principal dos guerreiros Tabajares (ou Tobajaras), para convencer as tribos que iam sendo encontradas no caminho a marcharem sem resistência guerreira.

Aliados aos lusos, os Tabajares do Braço guiaram os colonizadores certão adentro, e de lá voltaram com sete mil índios cativos – que eram os que haviam sobrado vivos, porquanto haverem preferido o convencimento à matança. Porque afinal não eram pedras nem metais preciosos, caro leitor, senão levas e levas de índios escravizados – o ouro vermelho – a grande riqueza que daqueles sertões se usava extrair.

Acontece que a cobiça lusitana era tamanha que, já perto do fim da viagem, os capitães deliberaram que a recompensa do Brasso e sua gente pelos serviços prestados seria serem tomados como escravos, igualmente aos demais que haviam ajudado a trazer.

Mas o Braço, que não era surdo nem burro, ouviu e entendeu a conversa dos lusos. E, bem mais ardiloso que eles, seguiu dando-lhes trela e guarida – já sabendo da traição em vista, ofereceu-lhes ainda por cima mais duzentos caçadores à guisa de escolta para o caminho de volta.

E esperou.

Esperou até a hora em que Caldas e Atayde, e os demais homens seus, de tão bem protegidos que se sentissem, descuidaram da vigília – e o ataque rompeu a calma da noite. A ordem de Braço-de-peixe a seus duzentos guerreiros – e mais aos homens de Assento-de-Passáro, outro chefe seu parente que chegou para acudir – foi flechar os portugueses todos até que não escapasse nenhum com vida.

Assim foi feito. E no restante daquela noite fez-se festa e foi servida carne branca. E a indiada de cativa tornou a ser livre. Livre (verdade que graças ao macunaímico Braço-do-peixe, cujo restante da história um dia ainda lhes terminarei de contar) para voltar para suas terras, livre para ir para onde quisessem na manhã daquele dia raro, aquele dia de índio.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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