Das muitas razões pelas quais a gente viaja, 80% só ficam verdadeiramente visíveis pela janela do avião ou coisa que o valha. Não na paisagem que se vê fora, mas na paisagem diminuta que veria quem olhasse de fora para dentro, pelas janelas.

Se os saguões de aeroportos eram as novas salas dos passos perdidos (depois das salas de espera de tribunais), não-lugares onde ficávamos à espera ansiosa, meio do caminho entre o ponto de chegada e o ponto de partida, agora não são mais. Agora não se perde mais passos nas salas de espera, já que sempre há um celular ligado onde continuamos uma conversa que nunca termina com alguém.

Mas a sala da ansiedade era também – e por isso mesmo – a sala da reflexão. Sempre discordei um pouco de quem diz que as melhores partes de uma viagem são antes de ir e depois de voltar. Para mim, essas partes sempre foram as mais corridas e cansativas. É só na janela do avião, minha sala dos passos perdidos, em que dá tempo de lembrar por quê mesmo estou tendo todo aquele trabalho.

Não há, no entanto, Instagram que capture esse momento. Ninguém, nem nós, o vê. O espaço cada vez menor entre a cadeira, a cadeira da frente e a janela ao lado é uma cápsula privada, o camarote a que temos direito nesse navio, para pensar – sem o sinal do celular – como será a chegada. Completamente privado porque, lá fora, há a imensidão à qual não temos acesso e que somente nos transporta.

Mas uma vez houve alguém que viu.

Fotos do livro Passengers, de John Schabel.

Camilla Costa escreve aos sábados.

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