Na faculdade aprendi uma chatice insuportável que meu professor, claro, recitava com gosto (falo tanto dele aqui que melhor seria convidá-lo para escrever no meu lugar, e vocês ganhariam muito). O que dizia com a mão estendida e sorriso irônico é que é impossível não comunicar. E se quem cala, fala, há ainda o agrante daquele que falando diz mais do que pretendia.

Lembrei disso quando vi aquelas modeletes desfilando com bombril na cabeça no desfile de Ronaldo Fraga. O maquiador defendeu-se das acusações de racismo dizendo:

“Nunca foi minha intenção ou de Ronaldo Fraga ofender ou discriminar quem quer que seja. A ideia para o look do desfile era ressaltar a beleza de cabelos que podem ser moldados como esculturas, não importando o fato de serem crespos. Depois de testarmos alguns materiais, o Ronaldo Fraga sugeriu a palha de aço. Foi também uma forma de subverter um preconceito enraizado na cultura brasileira. Por que o negro tem de alisar seus fios? Eles são lindos!”

Se são tão lindos, por que esconder os cabelos crespos dos negros com bombril? Ah, talvez fosse porque quase não tinha preto desfilando. O preconceito é bem enraizado mesmo, mas igualmente visível.

E avemaria, que ano é hoje, por que essa menina lembrou disso agora? Não me ofendo, gosto de velharias, mas tem até um “gancho” mais ou menos novo. Gerald Thomas assediou Nicole Bahls porque “A mulher não é um objeto. Mas não deveria se apresentar como tal”. Um pensamento totalmente retrógrado querendo posar de vanguarda, porque “somos todos da classe teatral e nossa função é apontar as vossas falhas”.

Dá preguiça, eu sei. E por causa dessa vontade gigantesca de deixar tudo pra lá, muita gente suspira que isso não significa nada. Que é só uma besteira de quem não tem o que fazer. Enquanto isso, os militantes berram. O que me dói é ter de reconhecer que eles estão certos.

Tatiana Mendonça escrevzzzz às sextas