Tomate em italiano diz-se pomodoro. Não é novidade, todo mundo que compra molho pronto de caixinha sabe. Pomodoro, pomo d´oro, pomo de ouro, o fruto avermelhado que o sol do Mediterrâneo doura.

Plural de pomodoro é pomodori – é assim na língua de Dante: “i” no final para o plural masculino, “e” para o feminino, via de regra. Mas entre os mais velhos do sul da Itália ouve-se dizer pomidori. Não é ignorância, senão sabedoria: por detrás do erro à primeira vista fortuito esconde-se uma renitente denúncia às violências que toda gramática impõe ao caminho comum do sentido: pois o plural de pomo d´oro era para ser, no mínimo, pomi d´oro, frutos de ouro. Mas não. É como se, entre nós, o plural de fruta-pão fosse fruta-pães. Então, na ausência da lógica na base da regra, os anciões tripudiam: estranho por estranho, melhor pomidori que pomodori.

Mas esse intróito todo foi para tomar coragem de contar a vocês que certa feita cultivei tomates. Adoraria poder contar tê-lo aprendido de pequeno, quando ainda usava calças curtas e suspensórios, respirando aquele arzão amarelado do terreno em que nonno Franceschino cultivava alguns pés de agrumes na carina Mormanno, encravada nas montanhas que separam a Calabria da Basilicata. Mas não: a verdade, se não é menos bela, é sempre menos cinematográfica, de sorte que não fui criado no campo senão num apartamento miúdo nesta Bahia transatlântica, nunca cultivei tomateiros na infância, tampouco meu avô, embora italiano, jamais me foi apresentado como “nonno Franceschino” – pois quando nasci ele já havia se transmutado no brasilianíssimo sertanejo vovô Chico.

Em todo caso, já tive sim a honra de cutivar tomates no sul da Itália. Não na calabresa Mormanno, mas numa horta pequena nos arredores da siciliana Catania.

Quando cheguei para dar uma mãozinha na lida, os tomateiros já estavam plantados, mas ainda em broto. Antes de tocar nas plantinhas, precisei demonstrar talento para a coisa limpando o terreno do mato ao redor de cada pé. Agachado, de joelhos na terra. Joelhos e mãos. Não sei se aprendi bem o serviço, mas pude entender de onde vem a saúde mental de quem cultiva a terra: cada toco de mato vale um pensamento dispensável; cada palmo de terreno limpo é metáfora de nossa própria mente, sempre tão necessitosa de ordem e de paz. Aquilo é uma beleza, serve para o sujeito achar o fio da meada no novelo das ideias, purgar o mal que eventualmente tenha feito a alguém, redimir-se, enfim, de todas as misérias.

Porque o mato consome o viço da terra, de maneira que a terra, estando limpa, cede mais viço aos tomateirinhos. No terreno limpo eles crescem mais rápido, mas não feito arvorezinhas: vão-se enramando pelo chão. Espalham-se em todas as direções, e desse jeito arriscam dissipar energia em uma porção de galhos fracos, que roubam vigor ao tronco central. E o que é pior: espalham-se rasteiros, suscetíveis às formigas e demais bichos da terra.

É quando os tomateiros pedem uma mão ao cultor da terra.

Fui então instruído, nessa fase, a enfiar cânulas (de bambu, mas pode ser qualquer pau) próximo ao caulezinho de cada pé. E, em seguida, a erguer cada um deles, e a encontrar seu galho mais forte, para então amarrá-lo docemente à estaca, dando-lhe direção, sustentação. É como erguer do chão alguém que nos pede ajuda – requer sobretudo crer que, dando uma mão àquela vida disforme, ela irá no futuro florescer e dar seus frutos de volta ao mundo, agradecida.

Mas para o tomateiro crescer forte, para que os frutos venham bonitos, precisa podar. E nas mãos de quem só aprendera a arrancar, a destruir o mato brabo, uma tesoura de poda parece arma perigosa. Com que critério afinal se escolhem os galhos certos a serem eliminados da massa de vida folhada de cada tomateirinho verde?

Pois – isso logo aprende-se – o certo é cortar os galhos de baixo, de baixo para cima, os que concorrem com o tronco principal. Dá pena quando são bonitos, mas é preciso: se não os cortamos, acaba que a planta não toma rumo e, crente de estar realizando todas, no fim não realiza nenhuma das promessas de vida que cada ramificação encerrava em si. O certo mesmo é cortá-los, pedindo licença a cada tomateiro para tal. Com ou sem palavras, o homem que cultiva a terra dialoga com cada planta, como se lhe tentasse identificar o talento maior, o rumo certo entre todos aqueles destinos possíveis que ela propõe quando jovem. Novamente não sei se aprendi bem o serviço, mas pude entender como o cultivo da terra poupa o homem da leitura de Freud (ou, melhor, ajuda-o a compreendê-lo melhor), como o ensina a conduzir e educar planta, bicho ou pessoa, respeitando-lhe a alegria vivaz de querer expandir-se para todos os lados, mas orientando-lhe a fazer escolhas à medida em que cresce, porque afinal não se pode ser tudo o que se quer nessa vida.

Ao longo do processo, é claro, não se pode esquecer de molhar os tomateiros – com pouca água a cada vez, mas cuidando para que o terreno esteja sempre úmido e fértil. Passados uns dois, talvez três meses, começam a despontar os primeiros os pomodori (ou pomidoro. Ou pomidori). E eu – agora já me fora delegada a função de gestor autônomo da horta – enchia, cheio de orgulho paternal, os cestos e baldes com os mais maduros, para comê-los em seguida n’alguma receita deliciosa do Mediterrâneo.

E por aqui vou encerrando, amigo leitor, porque já vai dando a hora do almoço e essa conversa de tomates me deu fome. E se toquei no assunto nesta semana sem ter falado de preços, de crises, de inflação, é porque não entendo muito dessas coisas. Perdão, caro leitor, mas isso é tudo o que sei sobre tomates.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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