pus um par de meias e sentei na varanda da casa sentindo o frio que se abateu sobre a cidade, e me veio um pensamento como uma aparição: ruim pra mim, bom pras macieiras, você sabe, Romeu, as macieiras não são afeitas a climas tropicais, precisam de um pouquinho de frio, e eu me deliciaria com você deitado nesse pedaço nosso de mundo, rosto perdido dentro dos meus cabelos, dizendo que tropical era eu, que cheirava a frutas, e comeria o seu riso e lamberia o meu pranto de saudade alimentada,  de desejo encarnado, mas aí é que me destroço nesses dias de frio, por quê por quê por quê esse frio veio hoje tão arrasador? pra meu corpo tremer sem amparo? olho daqui as macieiras bonitas, maçãs vermelhas e vivas, e acho que elas me afrontam, você não acharia? a casa cheira a madeira, cheiro bom, mas de nada me adiantam os cheiros, as luzes, as plantas, de nada adianta o café no fogão à lenha e o pão que fiz com minhas próprias mãos, pão caseiro pra você gostar, de nada adianta se você não veio, nem as maçãs que catei no pé pra cortar em pedaços no prato amarelo que comprei pra ficar bonito na mesa vermelha no meio da sala, sério que você não vem? minha dor vai continuar regada por esse frio de cortar os ossos? sei, sei, eu sou teimosa, com esse par de meias no meio do gelo, pólo norte dentro de mim, mas é ânsia de ver  o amor no portão, alimento, alimento, alimento, é triste, Romeu, mas acabei de ver que uma maçã caiu no chão, podre como convém aos amores sem adubo

Carmezim escreve às quartas-feiras

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