Dentre todas as verdades irrefreáveis do universo, aquelas que saltam às ruas, que ouvimos nos becos e balcões de bares, que o barbeiro nos sopra ao ouvido enquanto afia a navalha que lamberá nosso pescoço, eis a mais antiga e eterna, atual e perene:

Incutido é pior que doido.

Sim, pior, não há dúvida. Pior, posto que seja mais perigoso, sendo menos utopista e mais estoico. Pior, compulsivamente arraigado de um senso de realidade distorcidamente adequado a justificar um conceito, ideia ou concepção que se dispõe a suplantar e ignorar qualquer juízo contrário. Um mundo construído e cercado por altos muros de ignorância e soberba.

Eu gosto de doido. Doido vive num mundo alternativo, com regras adaptáveis e labirintos onde entradas e saídas aparecem aqui e somem acolá. Doido persegue ideias, mas elas não moldam sua forma de viver –errática e sinuosa – apenas a justificam. O doido invoca com você hoje, mas amanhã é seu melhor amigo. Sendo igualmente doido. E se hoje te odeia, amanhã lhe tem amor.

O mal que envenena o incutido é a convicção. “Todo tolo mantém-se convicto; e todo convicto é um tolo; e quanto mais falho é o julgamento de um homem, maior é sua convicção”, já pregava Baltasar Gracián, autor de “A arte da prudência”, há quase 500 anos atrás.

A convicção descabida é um mal do século XXI.

Para defender e fundamentar suas ideias desarrazoadas, o incutido recorre a interpretações desajustadas de livros sagrados. E vocifera blasfêmias. E faz ilações preconceituosas. E assenta seu propósito na fé. Como se a fé pudesse servir de linha para costurar o juízo inoportuno que prega.

O incutido justifica a vexatória derrota diante do rival como algo circunstancial. Bate pé firme, garante que sua equipe é superior ao adversário, que o planejamento pouco precisa ser mudado, e que tudo se ajustará, pois esse é o desígnio que lhe foi reservado. Derrotas acachapantes devem ser encaradas como provação, um obstáculo que tenta lhe tirar do caminho correto, que alimenta os críticos vorazes a infligir-lhe infâmias, mas que não deve perturbar o ambiente, nem tirar-lhe o sossego. O incutido está crente que está no curso certo e nada abalará sua fé.

Por isso tudo, meu maior medo é ter convicção de alguma coisa. Prefiro ficar doido. Ou tomar um porre de 51.

Alex Rolim escreve às quintas

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