Antes de morrer pensou se o material já estava pronto. Quantas páginas ia ocupar o especial. Se já vinham procurando os conhecidos, os parentes, pesquisando passagens da sua infância. Pensou se não deveria ter escolhido ele mesmo a foto da capa. Ou se não podia deixar um editorial criticando deus por ter partido.

Olhando para o espelho em frente à cama viu seu corpo velho de homem velho, lembrou da mãe. A mãe é quem rendia o melhor depoimento, o que  merecia. Se ligasse agora para seu jornal e fizesse ele mesmo a repercussão da própria morte. Diria “Acho uma infâmia, mas foi um grande homem, e um homem pequeno”.

E viu o filho autorizando que o matassem quando ainda estava vivo.

Depois de amanhã a manchete dos juros. Da nova crise. Os esportes.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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