"Você é o melhor baterista do mundo. Mesmo."

Em 31 de janeiro de 1969, Ringo Starr recebeu o postal acima, enviado por Paul McCartney. Era um dia depois do show ótimo dos Beatles no teto da Apple, no número 3 de Savile Row, em Londres, o último show da banda. Ele provavelmente deveria estar se sentindo como o melhor baterista do mundo mesmo.

Pelas minhas contas, isso também foi pouco depois de uma época difícil para a banda, o início do fim, em que Ringo chegou a deixar o grupo. Os outros três Beatles estavam tão ocupados se odiando que esqueceram de amá-lo. E Ringo é uma dessas pessoas que precisa de um amor palpável de vez em quando, de um elogio sincero e espontâneo que não é daqueles de vó (“mas é claro que você é lindo!”).

Quando somos pessoas que jogam para a galera é assim, e não é nada fácil. Você ganha um prêmio ali, mas se sente fazendo um trabalho pouco valoroso acolá. Faz o show mais inesquecível de uma era com a melhor banda no mundo um dia, mas ainda precisa do amigo te valorizando, no outro.

Ao contrário do que pensam as pessoas sabem que você é assim, o elogio em si é a menor das necessidades.  O que precisamos é nos sentir fazendo algo bom e útil e bem feito. Que isso precise vir um pouco do reconhecimento alheio é onde provavelmente mora o problema. Coisa difícil de explicar.

Ora, direis, a isso se chama insegurança. E chama mesmo. Um dos grandes problemas de primeiro mundo, a insegurança. Cretino que dá vergonha de admitir. Mas fica lá, reaparece algumas vezes por mês te pedindo colo e atenção.

Em 1969 foi o Ringo. Esse mês sou eu.

(A imagem veio daqui)

Camilla Costa escreve às quintas-feiras, não importa se você está lendo este texto em uma sexta.

Anúncios