Quando o insigne editor do Purgatório interpelou-me formalizando o convite para fazer parte da equipe de cronistas do prestigioso sítio, fez poucas ressalvas. Liberdade temática, ideológica e agradável maleabilidade de formato foram armas sedutoras e dentro de poucos minutos o acordo estava apalavrado, sem necessidade de melar o bico da pena no tinteiro – como é de se esperar entre pessoas de brio. Pode ter havido alguma recomendação a mais, se não lembro é culpa exclusiva da ebriedade festiva daquela tarde.

Se houve, espero que não seja a de não transformar esta hebdomadária coluna em obituário. Entrei na fase onde minhas referências começam a desencarnar – Omnes una manet nox, diria Horácio – e, novamente, rascunharei um panegírico a um dos bons que partiram desse Vale de Lágrimas: O velhaco Dicró, o último dos malandros.

Apesar de ter ido a apenas um show do sambista carioca (alguns anos atrás, no Fantoches da Euterpe) tinha a impressão que ele era alguém próximo. Meu pai, fã ardoroso, escuta samba religiosamente todos os domingos numa sequência que não muda: Kid Morengueira, Bezerra e Dicró. Os três são a representação arquetípica dos malandros cariocas: O malandro da Lapa antiga, seu sapato bicolor, chapéu panamá e samba-de-breque; o malandro do morro com sua boina, gíria policialesca e samba-maladragem; e o malandro do subúrbio com sua camisa florida, bloquinho de jogo do bicho e seu samba-satírico.

Suburbano desde que me estabeleci na Soterópolis, foi fácil compreender o universo de Dicró. O carteado, as rimas jocosas e as piadas cheias de picardia eram o tempero das reuniões familiares. O bom malandro tá sempre achando motivo para o riso fácil e é daí que ele tira força pra enfrentar as dificuldades cotidianas. Dicró dominava essa arte como poucos.

Essa malandragem faz falta. Esse recurso, esse drible gingado nos nossos marcadores, algo genuinamente nosso, sem amarras ou travas. Escarnecer a sogra diuturnamente sem trocá-la por 45 anos – o malaco era homem de uma mulher só. O verdadeiro malandro é artigo raro neste mundo cada vez mais hipócrita de lugares comuns e politicamente corretos.

Sambista de qualidade, era homem de comunicação fluida com diversas participações na televisão, de personagem na escolinha do Professor Raimundo a quadro no Fantástico. Seus shows misturavam músicas e piadas onde interagia com o público, um precursor do stand up que assola os palcos atuais. O que eu mais admirava, entretanto, era sua hábil técnica de tocar caixa de fósforo. Tentei diversas vezes, em vão, arrancar algum som que prestasse dos minúsculos ‘instrumentos’.

O bingo dominical, as galhofas da periferia, o baba matutino, o dominó apostado, o samba animado, a fé no jogo do bicho, o churrasco regado a cerveja sempre terão os divertidos sambas de Dicró como trilha. Foram feitos um para o outro.

A malandragem deixa saudade, mas não espaço para tristeza. E como desvendou Chico Buarque: “Menino quando morre vira anjo; Mulher vira uma flor no céu; Malandro quando morre vira samba.

Vira samba para continuar na vadiagem. Pura malandragem.                                                                   

Alex Rolim escreve aos sábados

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