Há pessoas cujas biografias concentram tanto terror e tanta beleza que é impossível não se sentir afetado, atraído, até coagido a tomar parte delas.

Já escrevi aqui sobre como descobrir a morte de Italo Calvino na orelha do livro que eu estava lendo me entristeceu inesperadamente. Mas minha última descoberta do gênero, se escapou à forma do impacto único, da noticia concentrada em uma linha de texto, teve por efeito oposto me acompanhar com uma intensidade regular por mais dias.

Sem mais demora, falo do cineasta Elem Klimov (1933-2003). Nasceu soviético e morreu russo. Estudou na mítica escola moscovita de realizadores, a VGIK. Fez 14 filmes. O último deles, chamado simplesmente Vá e veja (1985), é considerado por cinéfilos como um dos dois melhores de todos os tempos sobre o tema da guerra (não, Apocalypse now não está na lista).

Mas não são os mitos e feitos de Klimov que me interessam, mas sua relação com eles. Talvez venha daí essa compaixão estranha que sua figura me desperta (e que papel as imagens têm nessa relação! Ver sua foto na caixa do DVD, oculos na mão e marcas no rosto, é como uma reedição em ondas deste sentimento).

Poderia ser dito que seu filme é a transformação em mito de uma lembrança: aos nove, dentro de uma carroça, seu corpo, ocultado pelo da mãe, fugiu de Stalingrado, onde nascera, para evitar a morte na guerra que os alemães levavam para território soviético. Ouviu bombas e viu o petróleo escorrer dos reservatórios, virar chama, comer casas e prédios. Fugiu de barco pelo Volga e viu o rio pegar fogo.

Seu filme, até onde vi (o DVD travou no meio) encontra um outro registro: é lento e intenso, o contrário da agonia agitada que imagino para sua fuga. Há muitos planos longos de rostos em agonia: eles são feitos menos para ilustrar “o sofrimento do povo” e mais para partilhar, se possível, a dor. Há uma travessia de um pântano de lama movediça. Há uma frase: “Os seus estão todos mortos”.

Acho que tudo o que pode ser a guerra vista de dentro está resumido nesses três elementos.

Este filme de 1985 contém outro, e outra tragédia também: em 1979, Klimov perde a esposa, Larisa Sheptiko, em um acidente de carro. Tinha 40 anos.

Larisa viajava em busca de locações para um filme – dela. Era cineasta, como Klimov. E assina o filme que ocupa o topo da tal lista cinéfila sobre a guerra: A Ascenção, de 1977.

Viva, teria sucedido sua obra-prima com Os adeuses a Matiora, filme para o qual se preparou por anos e que coube a Klimov finalizar em 1980. Ele faria ainda, neste mesmo ano, Larisa, um documentário sobre ela.

Mais do que os filmes em questão, a trajetoria de Elem Klimov me espanta porque tudo desemboca no cinema como escolha de vida, como expressão e vitória (relativa) sobre a própria vida, seu terror e sua tragédia. Como diz uma atriz em Larisa, talvez talento torne mesmo as pessoas imortais.

Diego Damasceno escreve às terças

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