O bom humor do radialista ao anunciar as sete em ponto não foi suficiente para mudar o ambiente dentro do carro. O sono lhe dava o direito ao mau humor. A mãe, que respeitava sua mudez matinal, ia pensando na quantidade de trabalho que lhe esperava após deixar a filha no colégio.

Era só uma manhã mais, até que os primeiros acordes do violão saíram de dentro das exíguas caixas de som e provocaram uma incompreensível aflição na condutora. Quando a voz apareceu, as lágrimas vieram juntas. Antes do refrão o automóvel já estava estacionado para que fosse permitido chorar com todo o corpo.

Ela havia visto aquela mulher que tanto amava e admirava ficar doente de pura tristeza, mas não era capaz de conceber que uma música que lembrava a uma pessoa podia fazer aquele estrago.

Jurou para si mesma, do alto da sua sabedoria de dez anos, que jamais deixaria que aquilo acontecesse consigo.

Hoje, quinze anos depois, mantém a promessa intacta: quando um homem, armado de uma melodia, ameaça entrar em sua vida, ela fecha a porta, coloca todas as trancas, e empurra o sofá para se assegurar que ele nunca, jamais, conseguirá passar. E corre para a cama, se enfia embaixo das cobertas e tapa os ouvidos com o travesseiro, para que nem a música penetre em seu bunker.

Ricardo Viel escreve às segundas

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