Você já observou como as mudanças que acontecem gradativamente são mais difíceis de perceber? Ou como as ferramentas que incorporamos à nossa rotina se tornam – ou aparentam ser – fundamentais do dia para a noite? Eu, distraído e observador como bom aquariano que não acredita em astrologia, nunca havia reparado tal fenômeno, pelo menos até essa semana.

Sim, vou usar o método Tom Zé de dialética, confundindo para esclarecer. Isto porque, caso você não tenha passado esta semana que finda de rolé em Marte, certamente ouviu falar de um aplicativo alcunhado Instagram. Se não ouviu, leia este artigo da modernosa Camilla Costa num Purgatório antepassado.

Pois o tal Instagram foi desenvolvido por um brasileiro chamado Mike Krieger (não nascem mais Zés, nem Antônios, nem Amácios na Pindorama para tristeza do centenário Jeca) que, agora bilionário pois o aplicativo fora adquirido por aquela rede social cujo filme não ganhou o Oscar principal, nos brindou com a definição cabal da sua turma: “Para minha geração, não há mais uma clara definição entre o que é estar off-line ou on-line. Sempre estamos on-line”.

Provavelmente por ser alguns anos mais velho não consegui me enquadrar nessa geração supracitada. Até constatar que, de fato, passava mais tempo on-line que off-line. E pior, não tava ganhando nada, nem comendo ninguém com isso.

Aí, meus amigos, a caraminhola tomou conta do juízo. E como diria meu bom conselheiro Brás Cubas “Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho”. Ora, pra que diabos tantos suportes, mídias e redes sociais? Redes é uma grande definição aliás, pois te prende e deixa inerte – a se balançar e pouco produzir.

Logo eu, caipira criado no agreste, infância sem energia elétrica que ligava a TV à bateria de carro e poupava carga para assistir Roque Santeiro na Telefunken com chave seletora de canais e chassi valvulado, virara escravo da moderna comunicação social e seus gadgets dispensáveis? Por São Mazzaropi, não!

Até porque não precisa ter MBA em análise de mídias sociais para entender como funciona o comportamento humano nessas redes. O perfil não retrata o que a pessoa é, mas sim o que projeta ser. As interações não são compatíveis com o mundo social em si, mas com uma virtualização desta realidade através de símbolos. O simulacro passa a ser mais atrativo que a realidade, pois o sujeito “virtual” é mais virtuoso que o “real” e até as imperfeições pessoais são glamourizadas.  Não cabe mais a anteposição virtual X real porque a realidade passa a ser estacionária da simulação. On-line e off-line se confundem simbioticamente. Baudrillard, ao lado de Machado na minha estante, já havia alertado.

Como sou menino do interior prefiro o contato sem mediações. Tenho medo de psicastenia e outras frescuragens. Posto que esses perfis digitais já me causaram transtornos em demasia a troco de porra nenhuma (unidade de medida internacional usada na Bahia), decidi cometer um harakiri digital. Empunhei minha Wakizashi virtual, tomei dois goles de cachaça de Minas (não tinha saquê, sorry), genuflexionei o corpo, cravei a lâmina na barriga e rasguei. Exponho aqui minhas vísceras, senão como prova de pureza de caráter, como epílogo de uma vida digital que deixa um espólio ordinário.

Escuto Tonico e Tinoco para expurgar os maus pensamentos. Do meu quarto, meu pequeno Catete, declamo: Saio da vida (digital) para voltar pra história!

Porque a vida meus amigos, na realidade, foi feita para viver. Curtir e compartilhar, vos garanto,  é bem melhor off-line.

 

PS: Para (in)felicidade dos leitores do Purgatório, meu espírito suicida continuará a vagar neste limbo internético. Escreverei na empoeirada Olivetti Lettera 22 e um pombo correio entregará os textos semanalmente ao editor que, se lhe faltar bom senso, publicará.

Alex Rolim escreve (off-line) aos sábados

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