Havia trabalho a fazer – sempre há.

Mas, quando vi, já havia sido tragado por prazeroso filosofê, regado a bom café, com um par de meus amigos da melhor cepa, na tarde de quinta passada. De metade da conversa, esqueci. Na outra, tratamos de definir o perfil de uma certa “genialidade possível”.

Lá íamos pela quarta hora de prosa – que é quando começam a escapar do espírito as inconfidências – quando reconheci-lhes o pecado terrível de até hoje ter lido menos Machado de Assis do que gostaria.

É que do Bruxo do Cosme Velho ando folheando uma edição grosseira do Quincas Borba – o qual em breve, espero, somarei à lista magrela em que figuram Dom Casmurro e mais seus primeiros contos fluminenses (destes últimos, tenho esperanças de um dia poder afirmar que lhe prefiguram todo o restante da obra, feito uma sorte de Aleph; mas isto não é assunto para hoje). Até Brás Cubas, que do além dos mortos sempre me sopra umas frases, solenemente me está à espera.

Tratei, como de praxe, de eludir-lhes com graça a minha ignorância, dizendo que “se há coisa de que me orgulho nesta vida, é justo de não ter devorado toda a obra de Machado ainda: é garantia de que terei leitura que preste durante todo o resto de meus dias”.

Tudo conversa.

Pois se deixei de ler os livros, dele e de outros, que até hoje não li, foi decerto mais por indisciplina, ou pelo ritmo lento de minha leitura (quiçá pelo sono que as letrinhas me apressam) do que por vontade vera de guardar gordura de leitura para o futuro.

Aliás (só agora reflito) acho que foi mesmo é por ter sempre conotado o ato de ler um livro como coisa solene demais para ser feita a qualquer momento, em qualquer sala de espera, sem que se possa estar de banho tomado e barriga cheia, recolhido alheio a toda barulhada.

Aí lembro que antes, feito aquele autodidata da Náusea, acreditava que um dia conseguiria varrer todas as estantes de todas as bibliotecas, de cabo a rabo, do primeiro livro da letra A até o último da Z, e cada livro da primeira à última página.

Depois, quando caí em mim da impossibilidade da empreitada, resolvi que me atreveria a enfrentar todos os livros que me despertassem o interesse. Que os compraria sempre que pudesse, e os leria até onde desse – até quando outro me passasse adiante e me furtasse o olhar.

E assim passei a cultivar uma erudição desregrada e parcial, cheia de pérolas mas mais ainda de lacunas, muito embora precisa no pouco que chego a acumular. E desde então minha vida vem-se tornando uma torrente de livros interminados.

Então, já mui cônscio da inelutável ineficácia de tal método, havia me conformado com morrer à margem de ser alguém na vida. Foi quando li Fernando Sabino, sobre si mesmo, dizendo que

Passando o olho pelas estantes, descubro, conformado, que não foi nem a centésima parte do que esperava ler. E muito menos do que afirmo (o que é pior, acreditando eu próprio) haver lido. Já não falo dos livros cuja leitura dispensei de iniciar, baseado no pressuposto daquela boutade de Oswald de Andrade: não li e não gostei. Falo dos que deixei de terminar, dos que li em diagonal, ou dos que ficaram para sempre com aquela dobrinha numa das páginas do meio, para que eu um dia retomasse a leitura.

Não cheguei a recuperar as esperanças – não me atrevo a comparar a ignorância de Sabino à minha, muito maior – mas resignei-me com o fato de que o dia em que conseguirei ler tudo o que gostaria jamais chegará.

Pouco importa: seguirei tentando.

Apoiarei-me em Schopenhauer, que em algum lugar diz que mais importante do que ler é pensar, e que muita gente por aí preenche com ideias de outrem, folheadas em miles de livros, os vazios do próprio tutano.

Apoiarei-me em meus amigos, concluindo com eles que a única genialidade de fato indispensável nesses tempos em que tudo já se conquistou, em que quase tudo já se descobriu, é a que for capaz de traduzir toda erudição, mesmo que pouca, em franco diálogo; e que transite em todos os meios, letrados e não, por gosto da diferença; e que se contente (e até ria) dos próprios limites, porque humana, demasiado humana.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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