No dia seguinte às tragédias, a vida era um quiz show no qual respondíamos a charadas bobas e procurávamos pequenos prêmios em dinheiro escondidos pela casa. As perguntas eram sempre as mesmas. No final, nosso pai nos perguntava o quanto gostávamos dele. Muito, respondíamos. Muito muito ou muito pouco? Várias vezes nos recomendava, a mim e às minhas irmãs, ficar longe dos padres, que queriam era comer gente.

Lembro das brigas, e das brigas de galo, dos gritos e da poeira. As apostas e os gritos cresciam quanto mais a morte se aproximava dos animais. Porres, cheiro forte de suor, hálito de cerveja e tentativas de fazer parte de uma vida que não tinha lugar nem para si.

Mais tarde, quando a distância ficou grande demais e só dava para falar aos berros, uma nova tentativa foi feita. Ele disse “vamos ali” e não cabia questionamento, porque eu sabia mais ou menos onde estávamos indo assim que tomou a estrada. Eu tinha quase quinze anos e acho que desde que comecei a distinguir uma palavra de outra ele prometia (ameaçava?) me levar em um puteiro.

Me recusei a entrar e assim demarcamos nossos limites. De tão constrangedor, aquilo nunca aconteceu e era o que tínhamos para dividir, era o mais próximo que estivemos até então.

Um dia, depois de se tornar uma voz bimestral ao telefone, meu pai precisou usar fraldas, e ajudei a trocar. Massageei suas pernas, limpei seus olhos amarelos e o ouvi dizer incoerências e chamar por gente morta. De um jeito estranho e silencioso nos resolvemos. Não cabiam mais as mesmas perguntas e as mesmas brigas. Em algumas horas ele morreria e fui para longe para não precisar me despedir.

Pedro Fernandes escreve às quintas durante as férias de Camilla Costa

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