Xuxa toca incansável enquanto os convidados passeiam pela casa apertada empunhando refrigerantes e salgadinhos (mexer na mesa dos doces, só depois). Entre tantos conhecidos, de mim só dá para apontar os dois enormes laçarotes amarelos que minha mãe amarrou no meu cabelo achando que eles podiam servir de penteado. Passa o parabéns, passa a lambada, só aí apareço, vinte e um anos distante de quem sou hoje. Se ver assim é, antes de tudo, um exercício de reconhecimento, principalmente porque não sei, nem tenho meios de saber, no que estava pensando. E não saber no que alguém pensa é sempre ser estrangeiro. Mas incrível é ver que não tive imaginação para tornar-me muito diferente da miniatura que era. “Olha, desde sempre enfunada”, alguém comenta, vendo o VHS recém convertido em DVD, e minha cara já prova um leve e persistente desgosto de tudo.

É de memórias e de infância que trata um livrinho que ando lendo, Vermelho amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós. Estava amando muito até ele escrever que “aroma é uma amora se espiando no espelho”. Aí fiquei na dúvida se devia continuar, mas o perdoei, porque apesar de permanecer enfunada, bem aprendi que nada é perfeito.  Foi sorte, porque suas páginas estão me trazendo muitas alegrias, como quando diz “ler é meu único sonho viável”, encantadora certeza da qual compartilho.

Talvez não tivesse ainda dez anos quando meu pai encasquetou que a gente precisava estudar mais, mesmo sem vermelhos no boletim. Minha irmã mais velha foi obrigada a escrever redações diárias, que ele depois corrigia, e eu tive que ler toda a coleção de Monteiro Lobato, ainda que as minhas amigas estivessem lá em casa me esperando para brincar. A obrigação durou tão pouco quanto a de comer inhame no jantar, mas foi, pra mim, sorte divina. Uma das coisas que mais me acalmam é saber que nunca poderei voltar a ser analfabeta. E que se algo muito terrível acontecer com o mundo, e por algum acaso sobrarem os livros, seguramente estarei a salvo.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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