Rafael Faria Lima*

Tenho muito medo de escrever sobre a minha cidade de Salvador, a nossa.  Do meu caldeirão de letras brotam coisas pouco lisonjeiras sobre ela, embora, como um Francisco Cuoco de turbante, nada me surpreende mais, nada, nada…

Já sonhei com um aeromóvel mergulhando no mar fétido da igualmente fétida Feira de São Joaquim; com um teleférico desenhado por Lelé, atravessando incólume a crackolândia da independência e despejando dejetos sobre a Arena da Fonte Nova; com a montanha russa relativando a distância entre o nada e o lugar algum; e até mesmo com o oceanário do Clube Português tornando real aos olhos incrédulos dos baianos a verdadeira cabeça de bacalhau, e vivo, ainda por cima.

Mas como uma grande paixão suporta até mesmo traição, vivo atravessando a geografia feminina de Salvador, de cabo a rabo – sem trocadilhos.  Dia desses, agoniando desesperadamente dentro do minha célula de sobrevivência umpontozero nas imediações do terreiro da Casa Branca (salve Mãe Tatá) senti um calafrio, desses que lembrou-me o tempo feliz do Halls Preto, quando vi imensas dragas e uma montanha de equipamentos, manilhas e outros apetrechos da construção civil, todos eles trabalhando em função da mais nobre arte do nosso triste Alcaide:

Escondeção dos Rios. 

É impressionante a voracidade que a Cidade do Salvador tem em engolir os rios urbanos.

Estive, nesses meus tantos anos de vidas, em muitas cidades pelo mundo. Pude ver o Rio Senna abraçar os Bateaux Mouches, o Tâmisa refletir a torre, o Danúbio ainda que não o tenha visto azul, o Tibre italiano com suas ilhotas urbanas, o Prata dos nossos hermanos e até mesmo o incansável Tietê, sobrevivente e mais parecido com um Sísifo de Camu insistindo no irremediavelmente “sem futuro”.

Nessa serpenteação por esse mundão de Deus, entendi que grades civilizações nasceram às margens dos rios: O Tigre e o Eufrates testemunharam Nabucodonosor queimar uma sobre os Jardins suspensos da Mesopotâmia, além do apogeu e declínio de Saddam; o Nilo escandalizou-se com um corno que acabou em Jararaca; e o Grande aprendeu a duras penas que Coyotes não é Itapemirim.

Mas em Salvador, ah!  Salvador é diferente. Já perdemos nosso Rio das Tripas, que serpenteava ou serpenteia (quem sabe?) o subsolo da Baixa do Sapateiro; o Dique Pequeno, que banhava o Nina Rodrigues, e, nos tempos modernos, o restante do Rio das Tripas que hoje serve para absorver o impacto das minhas tentativas de perder a silhueta nas corridas quase diárias pela avenida Centenário; e o cantado e agora decantado Rio das Pedras, que corta a avenida Jorge Amado, no Imbuí, que já virou ponto de concentração de, inicialmente, bucólicas barracas, mas que ao longo de 4 meses (só isso) viraram verdadeiras armas sônicas, capazes de deixar o Tiranossauro Rex do velho Wilson Marques na rabeira da estrideira estriônica.

Tudo isso foi um segundo de minha memória enquanto imaginei o futuro do Rio Lucaia, que rasga a topografia afro da avenida Vasco da Gama, encontrando mar junto ao pecado ao lado do Mercado dos Peixes. Esse futuro está escrito nas placas da obra, que indicam uns cinqüenta milhões para esconder o rio.

Ora!  Por que isso?  Para que isso? Será que não somos capazes de salvar nossos fiapos d’água? Torná-los habitáveis para os peixes? Transformá-los em piscinas para que nossos filhos (ou netos) possam jogar miolos de pães para peixinhos? Não somos capazes de criar um pista de Cooper ao redor de um rio sem precisar tapá-lo? Um pedacinho de ciclovia qualquer, já que a cidade quer ter a maior malha de ciclovias do mundo?

Ao prefeito não ousaria pedir nem a benção – ainda mais porque ele é evangélico –, mas será que não tem arquiteto nessa prefeitura? Não existe engenheiro no governo municipal?

Deixo aqui então minha sugestão ao prefeito para que ele faça antes de terminar sua gestão: tape toda a Baía de Todos-os-Santos. Meta um concretão retado cobrindo do Porto da Barra, passando pela Península Itapagipana (tomando cuidado para não cobrir o forte de Mont Serrat e o barco de Gerônimo), engolindo a foz do Paraguassú até a Ponte do Funil.

Pronto!!! Voilà!!! Touché!!! Resolvidos dois grandes problemas para o Governo do Estado:  O Ferry Boat e a construção da Ponte Salvador-Itaparica (uma rodovia pedagiada sairia muito mais barata e ainda dava para construir a casa de shows de Ivete Sangalo e uns empreendimentos tipo Le Park – ou seria Le Bath?).

Pensou nisso? Para mim bastaram apenas dois segundos.

*Rafael é o único jogador do Babaçonha com vinheta: Ra-fau-ry, Ui!

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