Era domingo quando terminou de ler uma história tão linda que acreditou estar a existência suficientemente justificada para todo o sempre. Mas logo na segunda-feira já quis morrer, desintegrar-se. Não, isso não, que de injustiças já estava farta.

Pensou repetidamente e quase anotou para não esquecer que quando chegasse em casa tinha que tomar o remédio da febre, para ver se a dor passava. Preferia, de todo modo, as agonias físicas às que cresciam como baobás em sua pequena cabeça.

O que gastava de tempo trabalhando enquanto podia estar vivendo. Como a frase daquele escritor que bem disse que nem gostava tanto assim de dinheiro a ponto de ter que trabalhar por ele. Quase certeza de que é coisa de Faulkner, que faz romances colando pensamentos e de repente parece que são seus.

Mas naquele dia que de nada valeu ouviu de um rapaz improvável que sua mãe escrevia poemas em papel de pão, e que sempre os encontrava perdidos pela casa. Quis chorar, mas avaliou a vergonha. Não conseguiu, no entanto, parar de pensar o que seria se esses momentos todos fossem espremidos e concentrados, juntando até mesmo os suspiros que no momento pareceram irrelevantes, e se todos assim reunidos dariam para encher uma latinha de extrato de tomate. E se era isso a vida.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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