Sebastian Gross, de Berlim, especial para O Purgatório

Eles querem reerguer o Muro de Berlim. Eles planejam um cemitério nuclear no bairro mais rico da cidade. Eles marcham com tochas pelo Portão de Brandemburgo, como os nazistas em 1933. No próximo domingo, 18, eles participarão das eleições para a assembléia municipal da capital. Pela primeira vez.

Sátira é o resumo do programa do partido. Tanto que o nome do grupo é, simplesmente, O Partido (“Die Partei”, em alemão). Foi fundado em 2004 por Martin Sonneborn, antigo redator-chefe da revista satírica alemã Titanic, e propõe-se a ser “sem substância”. O grupo é ativo no Facebook e Youtube. E depois uma entrevista no maior canal da região de Berlim, a popularidade do Partido só tem aumentado: o canal público RBB teve que, obrigatoriamente, convidar todos os 15 partidos inscritos nas eleições – entre eles os protetores dos animais, os piratas e o tal Partido. Martin Sonneborn aproveitou então a oportunidade e fez propaganda de seus “alvos vazios”.

“Não acho que somos mais absurdos do que os outros partidos na Alemanha. Só que nós somos os únicos que dizemos sem pudor que a aparência e o sorriso do candidato são as coisas mais importantes para o povo.” Em Berlim, veem-se cartazes do Partido nas ruas. Num deles, está escrito: “Superar objetivos”, sobre um fundo completamente vermelho. Num outro, a candidata do Partido Henriette Serbser faz propaganda com o slogan “Eu penso com a cabeça”. Outros políticos – sobretudo do partido de extrema direita NPD – são degradados com fotos e afirmações como “Ele rouba!”.

O Partido não costuma ficar escondido e até influencia a política real de vez em quando – com projetos satíricos, é claro. Em 2002 – quando ainda não havia sido registrado oficialmente como partido político – , fez uma campanha publicitária ficcional (e, obviamente, satírica) para o FDP (partido liberal alemão). Naquele ano, o FDP tentava atrair eleitores da direita que valorizavam ideias anti-israelitas. Os membros do Partido então criaram cartazes com slogans anti-semitas e distribuíram folhetos absurdos ao povo nas ruas de Eisenach, uma pequena cidade perto de Hanôver. O presidente da seção local do FDP não percebeu o sentido satírico da campanha e afirmou: “Estamos numa campanha eleitoral. É necessário polarizar hoje em dia.” Ele se deixou fotografar em frente de um dos cartazes racistas – e duas semanas depois, foi obrigado a desligar-se do FDP.

No ano passado, Martin Sonneborn entrevistou um lobista da indústria farmacêutica, fingindo ser um jornalista do maior noticiário do pais. Na verdade, a entrevista foi transmitida numa série humorística desse mesmo canal. No vídeo, o lobista confessava, pensando que a cena seria cortada, que os preços dos medicamentos são vendidos muito acima do preço na Alemanha, e que produtos mais baratos vendidos na Polônia são da mesma qualidade. Ele também perdeu o emprego dez dias depois – mais um escândalo no país.

Em 2009, O Partido obteve ainda assim 0,7% dos votos do eleitorado nas eleições de Hamburgo. Para as eleições deste ano em Berlim, as pesquisas apontam que eles terão entre 0,8 e 1% dos votos – o que já seria o melhor resultado na história do Partido numa eleição alemã. A manifestação final antes da eleição foi num teatro em Neukölln, distrito da região sul de Berlim. Martin Sonneborn cumprimentou cerca de 500 espectadores com um “Bem-vindos a Neukölln, o seu distrito em ruínas.” Filmes foram exibidos e o evento foi muito mais um grande teatro do que uma manifestação de um partido.

Naquele mesmo dia, Ângela Merkel fez um discurso de apoio ao candidato do Partido Democrata Cristão, cujo nome o autor desse artigo se esqueceu. A chanceler alemã falou em frente a aproximadamente 50 filiados e alguns turistas desorientados no centro da cidade, no Checkpoint Charlie. Estava chovendo torrencialmente.

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