Você bem que podia abandonar esse olhar perdido, tirar os olhos de cima das taças, virar pra minha cara e dizer de uma vez que não vai dar, que aquilo de idade, de não-termos-o-mesmo-mundo vai prevalecer, mas não tem coragem, você trinta e poucos, eu quase vinte, duas almas perdidas e jogadas numa sala de aula, num encontro que pensei que tinha a ver com astros, com espírito, com macumba, com amarração, alguma coisa fora de terra, girando em compasso, bonita, feito canto de Gonzaguinha, Delicadeza amor, teu nome é rosa Daquela sem mazelas e espinhos Daquela com perfume o tempo inteiro E que a gente quer plantada no jardim do nosso peito, mas diga, não se esconda aí na sua couraça, não, feito menino, moleque, se fiando no tempo passar pra eu me calar e o silêncio virar um muro de Berlim, uma faca cega, nada de corte, nada de rasgo, nada de paixão, menina besta eu fui, de me encantar com estas tuas mãos deslizando nas tardes, mãos que aqueceram a minha nuca, o meu ventre, o meu colo, o meu sexo, e acabaram por amargar o jantar que preparei, taças de boca fina, vinho francês, jazz no início, Rô Rô na metade, e essa música clássica drástica triste que você resolveu trazer pra cá, diga, pode dizer que foi de caso pensado, você fez de caso pensado, negar o meu gozo, negar o meu querer, fadar ao esquecimento o primeiro beijo quente, renegar o teu jeito fugidio de dizer que me queria, encostado na parede descascada com o cigarro na metade esperando que eu passasse. Diga, diga, diga logo, e pare de encher esta maldita taça com o meu vinho, sim, meu!, porque o jantar fui eu que fiz, eu que forrei a mesa com o pano rendado, eu que tive o cuidado de comprar o melhor frasco de tomate seco, e preparei a luz, porque sabia que no escuro eu teria mais segurança em pular o abismo, ir à frente, tocar seu rosto com a mão de quem vai ficar pra sempre, pular a etapa dos dizeres melados, pra dizer que agora era a hora de abrir o peito, formatei tudinho pra você se jogar e a gente se encontrar, mas porque você fica aí sem dizer nada? Como é amargo, travoso, o gosto de ter que voltar ao zero, de engolir o não do seu corpo, o afastamento, Por que sangrar o meu amor assim? Não penses ter a vida inteira Para esconder teu coração Mas breve que o tempo passa Vem num galope o teu perdão, e Rô Rô que não me deixa ser dura, amolece a minha cruzada contra o seu silêncio, você há dois dias tão imponente e seguro, na destreza das palavras, no não vai dar, não vai dar mesmo, não queria que fosse assim, e coisas outras inimagináveis para o meu fruto de tesão aberto, para a minha tropa de combate contra os olhares alheios. Eu briguei, briguei um bocado, até agora, nesta mesa, quando você teima em silenciar e passa a tocar a minha mão, a tocar a minha mão, tocar a minha mão…

Carmezim escreve às quartas

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