“Você é como uma testemunha, é quem vai ao museu e olha os quadros. Quero dizer que os quadros estão lá e você no museu, perto e longe ao mesmo tempo. Eu sou o quadro (…), esta peça é um quadro. Você acha que está nesta peça, mas não está. Você olha a peça, não está na peça.”

Não se trata de uma crítica. Lúcia, a Maga, não diz com cólera e nem para ferir Horácio. Faz, do seu modo, uma constatação sobre a personalidade do seu amor.

Tanto é assim que ela o inveja. Inveja sua erudição, sua facilidade de enxergar o quadro e teorizar sobre ele. Fato: quem está de fora vê o quadro todo, tem perfeita ideia do seu tamanho, das cores, proporções etc. Só que para alcançar isso é preciso não ser. E Horácio inveja a Maga justamente por ela ser/estar no quadro.

“Para que você quer usar óculos se você não precisa?”, diz Horácio – ele, que se retirar os óculos não enxergar nada.

Sem óculos, a Maga fecha os olhos e acerta perfeitamente o alvo. Mas isso só acontece porque ela não tem a menor ideia de que existe uma técnica, um complexo sistema para se atingir o centro – coisa que fascina e ao mesmo tempo frustra Horácio (que conhece a técnica, mas nunca dá no meio do objeto).

A história de amor entre eles (contada por Julio Cortázar em Rayuela) se alimenta por essa “dialética da bola e da parede”, como explica Horácio. Atração e repulsa; admiração e inveja; amor e desprezo. Seria esse o combustível do amor? Maga + Horácio é uma boa fórmula/receita?

Antes de acrescentar reticências neste texto – que terá desfecho na próxima segunda – deixo aqui mais um punhado de perguntas. Você, leitor(a), está dentro do quadro ou o observa (talvez por tê-lo pintado)? Você é um Horácio ou uma Maga? E se pudesse escolher, o que seria?

* Pode ser útil:
Cortázar define a Maga da seguinte forma: “daquelas pessoas que derrubam pontes com o simples gesto de cruzá-las”.
Horácio, sem dúvida, é um construtor (mais bem um projetista) de pontes.

(continua…)

Ricardo Viel escreve às segundas

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