Vejo na mesma pagina de jornal dois homens que passaram pelo crime. No rosto dos dois, um sorriso. O jornal finge que não, mas faz uma distinção: o crime não teria deixado um deles, mas o outro, sim.

É uma decisão editorial que deveria ser evidenciada, não travestida do argumento da “boa foto”.

As fotos falam. Falam por quem tira. Disse o documentarista, antropólogo e professor Stéphane Breton: uma imagem documental é aquela que traz as marcas das condições em que ela foi produzida.

Mas o jornal se sustenta em um pensamento mais largo, que ultrapassa o de Breton. Muitos de nós concordamos com ele em sua distinção.

O primeiro homem é Cesare Battisti. Causou indignação sua soltura e seu acolhimento. Foram constituídas provas de que Battisti assassinou a sangue frio e sem nenhuma motivação politica, apenas por fanatismo.

O outro homem é Diego Santos, um ex-integrante de uma facção criminosa que se tornou modelo de uma campanha publicitária.

Do ponto de vista da lei, os dois passaram pelo crime. Leis não são infaliveis, mas sua presunção de objetividade é um ponto de observação forte o suficiente para não ser descartado. Os dois já não devem nada ao sistema; mas ainda assim são desiguais. Por quê?

A historia de Diego é mais próxima de uma explicação conjuntural: pobre, morador da favela, deve ter sido sugado pelo crime antes mesmo de fazer essa escolha. A de Battisti é diferente: matou por maldade e usou a politica como desculpa.

Mas acho que essa interpretação não é tudo que há por trás dessa distinção.

Acho que há, antes de tudo, uma razão política e uma vontade moralizadora.

A política: Battisti solto e exilado é um produto da era Lula. O Diego livre é uma vitoria da segunda chance para uma pessoa que talvez não tenha tido nem a primeira.

A moralizadora: os maus devem sofrer, não podem sorrir. Agora que Diego virou modelo, agora que o reconhecemos como um dos nossos, pode, sim posar para a foto. Quando foi preso e saiu rindo numa foto, na delegacia, foi virtualmente linchado. O que essa foto não mostrou foi que todos no lugar riam de um esbarrão cômico de dois jornalistas que chegaram esbaforidos ao lugar. Já Battisti gargalhar é quase um outro crime: é escárnio.

Acho que pensar assim é agir com preconceito, no caso de Diego. E mirar errado, no caso de Battisti: é menos dele do que de Lula, de Tarso Genro e dos muitos que escreveram nossas leis a culpa desta gargalhada incômoda.

Diego Damasceno escreve às terças 

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