Havia um homem na calçada revirando-se para encontrar na dureza do chão o melhor jeito de dormir. Um mendigo novo, não aquele que se senta na passarela rindo tão alegremente para o nada – uma felicidade tão plena em sua loucura que sãos não vamos nunca alcançar. Suas roupas ainda estavam limpas, podia-se botar reparo até na camisa branca, quase alva. Por que ele foi parar ali não sabemos, nem por ofício perguntamos. É um homem e dorme na rua.

Li não sei onde nem quando que a maioria dos que vivem assim têm problemas de cabeça, além da miserenta pobreza, não se sabendo quando uma coisa dá lugar à outra, nem de que forma se alimentam. Que muitos não saibam lidar lúcidos com a insanidade do mundo é algo que mais que compreendo. Mas o desamparo desassistido, esse me incomodará sempre.

O que se podia fazer era resgatar uma prática  social antiga largamente utilizada em tudo que é interior, onde os doidos são coletivos. Cada cidade, como se sabe, tem o seu. E ele almoça na casa de um num dia, e janta na de outro, e dá carreira nos meninos que se amedrontam, e encontra sempre onde dormir, mesmo que seja na frente do passeio de alguém, se as paredes já lhe dão muita agonia. E as mulheres o chamam pelo nome e perguntam se está tendo cuidados. Assim vai se diminuindo um sofrimento que a gente não sabe e nem vai nunca saber de que tamanho é.

Toda essa tecnologia, essa rede, como eles gostariam de dizer, foi desenvolvida  sem especialistas em movimento antimanicomial explicando os jeitos de ser feito. Nas metrópoles, é um saber que se perde. Então ficam as ruas povoadas de invisíveis, e a gente atentando para não tropeçar.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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