Ilustração de Sophie Blackall

Quarta-feira, 4 de maio de 2011
“Mulher hassídica no ferry boat,
Eu sei que você nunca vai ver isso, mas você é tão bonita.”

Nunca fui boa na arte da paquera. Não sei muito bem o que dizer nem o que fazer e dificilmente dou papo. Acho a maior parte das (poucas) cantadas que recebo meio cretinas, especialmente aqui em São Paulo, onde as pessoas acham que “O que você faz?”, “Onde você trabalha?” e perguntas relacionadas a trabalho em geral são EXCELENTES modos de iniciar uma conversa. Em qualquer ocasião.

Mas estou convencida de que o problema é meu e da minha baixa tolerância para conversas de paquera. Quando conheci o Missed Connections, projeto em que a americana Sophie Blackall escolhe e ilustra anúncios de pessoas que se declaram para estranhos em sites de classificados, comecei a entender a dificuldade de dizer algo sincero, lisonjeiro e romântico para alguém que você não conhece.

Na pior das hipóteses, soa simplesmente assustador, como nesse caso:

Segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
“Eu vejo você quase todas as manhãs e acho que você já me viu também.
Eu sei o quão maluco vai soar isso, mas sei exatamente como seria o nosso bebê.”

Ou desesperado, como nesse:

Terça-feira, 6 de abril de 2010
“Bigode incrível no (trem) C,
Você: alto, cabelo castanho, bigode volumoso, camisa quadriculada azul/verde.
Eu: alta, loira, toda de preto e com galochas Burberry.
Eu entrei no trem C na rua 14 por volta de 10:50 na terça-feira de manhã. Você saiu na rua 23. Você estava me encarando. Muito.
Você é realmente incrivelmente bonito.

Blackall frenquenta sites como o Craiglist, uma espécie de classificadão americano na internet, que tem sempre seções de “Missed Connections” em diversas cidades. É um espaço para gente que encontrou aquela pessoa fascinante no metrô uma vez – ou todos os dias – e quer encontrá-la de verdade, para amizade ou algo mais.

O tom das mensagens varia entre declarações confiantes e tímidas. Dá pra perceber quem encontra a pessoa com frequência e espera algum sinal de correspondência amorosa e quem só queria dizer o que sentiu mesmo, porque acha que nunca mais verá aquele crush que passou na rua de bicicleta dourada (“Acho que estou apaixonado”, ele disse, depois de descrever o jeito como ela passou com a bicicleta dourada).

Mas de um modo geral, todas elas parecem meio solitárias. Quem faz um anúncio de classificados para dar uma cantada em alguém? O que faz com que alguém alimente a esperança de contactar um transeunte nos classificados? Talvez seja um preconceito meu contra gente que realmente acredita ter encontrado alguém especial na fila da padaria ou no açougue, só de olhar para a pessoa. Talvez seja um pouco de inveja, porque as vidas deles parecem mais cinematográficas do que a minha.

A verdade é que as missed connections são todas lindas, ilustradas ou não. Não sei se é o fato de serem por escrito, mas até as mensagens sem poesia conquistam um pouco. Na maioria das vezes elas são tocantes só por serem autoconscientes ou desajeitadas. Especialmente as dos homens, de quem sempre esperamos – injustamente – tanta destreza na hora da paquera.

Quarta-feira, 16 de março de 2001
“Chapéu branco de origem indeterminada,
Eu fiz um péssimo trabalho ao me apresentar a você no metrô.
Eu perguntei sobre seu chapéu branco de pele porque gostei dele, mas aí não sabia o que dizer depois…
Eu estava no trem F, da Segunda Avenida para Jay St. Write.
Me escreva se não se incomodar com caras que se atrapalham com as próprias palavras quando estão nervosos.”

Camilla Costa escreve às quintas-feiras

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