El azar es un dios con minúscula
Mario Benedetti

Não sei ao certo quando Deus morreu para mim (ou seria em mim?). Não foi de um dia para o outro, foi um processo. Ele foi desaparecendo aos poucos, cada vez que eu me perguntava onde Ele estava quando algo de ruim acontecia. 

 A impotência daquela “força” que movia o mundo foi se tornando mais clara para mim até que um dia percebi que eu já não questionava mais por que Deus permitiu que algo tivesse acontecido. Ele havia morrido.

Nasci numa família católica. Uma das avós acendia vela para os santos, lia seicho-no-ie, acreditava em espírito e rezava para São Longuinho. A outra me pintava um Deus cruel, extremamente severo, que não permitia falha – e punia.

Há, ainda, uma mãe católica que se tornou espírita e que tentou me carregar para sua religião, e um pai ateu, mas que nunca tentou me convencer sobre sua crença, ou falta dela.

Foi sozinho e aos poucos que fui desconstruindo a figura de Deus. Deixei de rezar, de pedir, e descobri que sem Ele tudo fazia muito mais sentido.

Foi libertador. Passei a me guiar pelo meu coração, a fazer minhas escolhas e arcar com elas, sem pensar em punição ou retribuição (terrena ou pós-morte) divinas. Passei, também, a aceitar mais as mazelas e injustiças do mundo. Já não havia mais quem culpar, não havia por que tentar achar respostas. Não havia mais os escolhidos e os rejeitados.

Deus virou deus em minúscula e passou a ser chamado por mim de acaso; e ele, o acaso, é capaz das maiores belezas e das piores crueldades, feito Ele antes de morrer em mim.  

Ricardo Viel escreve às segundas

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