Em um balcão que deve ter 2,0 x 1,0 m, não há centímetro que escape da mão cuidadosa, ligeira, de Dona Anísia. Um balcão, não. Uma pequena barraca de madeiras velhas, resilientes, acostumadas ao ritmo particular das madrugadas que teimam em tirar da cama quem vai trazer o colorido da cidade de 25 mil habitantes.

Dia de sábado cada cor reclama um espaço na banca de Dona Anísia. O melão faz uma composição com cachos de uva, o pepino divide um caixote com o tomate rasteiro e a pimenta-de-cheiro se irmana com a pimenta-do-reino. A feira é uma arte. O pincel é um braço forte, as bisnagas estão dispostas ao alcance das mãos de todos – cores, multidões! – e o preço final sempre é acordado.

– Meu filho, se quiser um desconto, fale baixo, pra só eu escutar. Faça sua proposta, que eu posso aceitar, faço negócio com você. Se os outros quiserem mais barato, vão ter que pedir a mim, no miudinho. Cada um sabe de si, sabe de suas finanças.

Dona Anísia tem a sabedoria da pechincha, forjada com a barriga encostada na madeira, a mão estendida onde pende um saco plástico, o peso já bastante gasto pronto para descansar na balança e ser passado pra trás: um quilo de tomate sempre vai ganhar a quebra. Aí sim, na voz de senhora de Dona Anísia, a compra vai estar com o peso ideal, “bem pesada”. Na feira dela as medidas são generosas. O fiel da balança é a satisfação.

Anísia traz sempre um lenço atado à cabeça, roupa simples. Um grande pedaço de pano faz as vezes de avental. Gosta de sorrir. Sumido é alcunha que dá a quem se arriscou em outra banca. Pra não perder o cliente querido, se agacha, some das vistas e emerge com uma penca de banana da prata “da melhor”. Saber agradar também é um dom. Quem vai negar a banana?

Cebola roxa, ovos de quintal, cabeça de alho, galinha caipira. Um pópópó sem fim. Feijão verde medido no litro, na lata, debulhado com um dedo…de prosa. Andu. Tempero cheirosíssimo verde.

A feira é uma arte e Dona Anísia arruma a banca pra encher os olhos e salpicar doçura em cada sacolinha carregada.

Carmezim escreve às quartas

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