Acabo de voltar do Arquivo Transcronológico que armazena todas edições de O Purgatório – fica no quarto andar aqui do prédio onde funciona nossa Redação e é aberto a visitação pública, mediante prévio agendamento. Trago cópia da edição 18.375 de nosso diário, publicada em 17 de julho de 2061. Nossa edição deste domingo republica a entrevista concedida naquela data pelo cientista afro-saxão Senuf Ueniri, que recebera (ou receberá – prova de que o Tempo é mera questão de acento) o prêmio Nobel em 2046. A reportagem é do memorável Honório Arimatéia, saudoso (ou futuro) colaborador aqui do blog.

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Enfim livres para esquecer

“O que você está fazendo aqui? Vocês não entendem que eu não inventei nada?” Humilde, socrático, bonachão, o considerado maior cientista de todos tempos diverte-se ao fazer tilintar a miríade de chaves e moedas sem valor que carrega dentro dos bolsos, na caminhada preguiçosa que faz do quintal até o portão de sua casa, onde recebe a reportagem de O Purgatório. Prêmio Nobel de Fisiologia de 2046, Senuf Ueniri, 77, cientista-chefe do grupo de pesquisadores que inventou o hoje imprescindível Sistema Google Mind, avalia, 15 anos depois, as conseqüências da descoberta que transformou a vida em sociedade. Trata do assunto, contudo, com uma simplicidade desconcertante: “A memória das pessoas, já naquele tempo, há muito tinha deixado de ser um arquivo, e passado a ser um verdadeiro indexador de informações. Fui, se muito, instrumento de uma evolução natural prefigurada: apenas cerquei de tecnologia o que já era uma demanda do organismo humano; uma demanda social; uma demanda, por fim, histórica.”

Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

O Purgatório – Como surgiu a ideia de criar o Google Mind?

Senuf Ueniri – Não houve uma idéia, foi mera questão de economia. O processo de liberação do polo emissor de informações, iniciado em meados dos anos 90 do século passado – você ainda não era nascido quando começaram a pipocar os antigos blogs, feeds de notícias, rss, mailing lists, redes sociais etc – multiplicou exponencialmente a quantidade de atos gnosiológicos [de aquisição de conhecimento] aos quais cada indivíduo se expunha por dia, por hora, por minuto. Em paralelo a isso, o tempo, e sobretudo a capacidade humana de assimilação dessas informações, continuaram inelásticos, os mesmos. De modo que o “boom” de informações em circulação, que inicialmente havia sido acolhido com euforia, logo se tornou, a partir do início deste século, um verdadeiro pesadelo. Tanto que no final dos anos 20, início dos 30, cálculos de nosso instituto já comprovavam que, em dez anos, seria matematicamente impossível apreender e depois acessar, usando os mecanismos naturais da memória, mais do que 0,74% das informações com as quais um indivíduo tivesse contato durante a vida. Ou seja: em pouquíssimo tempo, a sanidade mental em si seria algo matematicamente impossível. Como conviver com o fato de poder saber tudo e não ter capacidade orgânica de se lembrar? Você já imaginou como seria a vida assim? Estávamos à beira do colapso. Do caos de gente. Do fim. Era tudo ou nada.

OP – Isso portanto torna o Google Mind uma grande idéia…

Ueniri – Não. Não torna não, sabe por quê? Por que quando a morte – e nesse caso, a da humanidade – é iminente, não há espaço para brilhantismo, originalidade, criatividade – vaidades que, ademais, hoje já estão completamente obsoletas. Nada disso: Google Mind foi nada mais do que um gesto de sobrevivência da humanidade como um todo. A memória das pessoas, já naquele tempo, há muito tinha deixado de ser um arquivo, e passado a ser um verdadeiro indexador. Fui, se muito, instrumento de uma evolução natural prefigurada: apenas cerquei de tecnologia o que já era uma demanda do organismo humano. Uma demanda social. Uma demanda, por fim, histórica.

Você era muito jovem, mas se lembrará que cientistas do mundo inteiro colaboraram no Projeto Google Mind, aceitando remuneração inclusive muito abaixo do que os grandes laboratórios ofereciam à época. Tivemos o cuidado de registrar uma patente coletiva, no molde Creative Commons, para o projeto, de modo que os grandes laboratórios jamais puderam se apoderar do produto dessa grande empreitada. Foi talvez a primeira ação verdadeiramente multilateral e livre da história da ciência.

OP –  Em menos de 15 anos, o Google Mind se tornou essencial, a ponto de a ONU ter emitido uma resolução determinando que “todo ser humano, independentemente de cor da pele, sexo, opção sexual, classe social, religião ou etnia terá direito a usufruir do Google Mind, a partir do quinto ano de vida, mediante custeio e fornecimento dos Estados nacionais”. Entretanto, apesar de 99,6% da população mundial usar e depender do Google Mind, ainda hoje poucas pessoas entendem como ele funciona. O senhor poderia nos explicar isso mais uma vez?

Ueniri – Mas é claro, com todo prazer. É óbvio que já não me recordo, mas posso consultar em um segundo. [Retira de um estojo preto de couro seu Minder, abre-o sobre a palma da mão e digita, em inglês, “funcionamento GM versão resumida jornalistas”; clica no terceiro resultado da lista; boceja, tosse e cofia o bigode de fios grossos e amarelados de fumo antes de retomar a fala]. Opa, pronto, tá aqui. Então [lê na tela do Minder]: com a idade mínima de cinco anos, a criança engole uma cápsula contendo uma enzima que se instala no córtex cerebral e ali se replica, em certa dosagem, ao longo de toda a vida. Junto com o comprimido, a pessoa recebe um modelo básico do Minder, um aparelho indexador digital, pessoal, codificado e intransferível, que troca ondas eletromagnéticas com o cérebro agora “hiperenzimado” do indivíduo. Qual foi a nossa perspicácia? Ora, foi justamente o fato de termos conseguido observar que bastava criar um sistema indexador químico-digital para transformarmos o conjunto de informações que o cérebro humano armazena de maneira caótica em um imenso e acessível banco de dados.

É exatamente o mesmo mecanismo do antigo Google: só que, agora, a base de dados é, em vez da internet, o cérebro. Quando a pessoa digita, por exemplo, “todos os livros que já li” no campo de busca de seu Minder, o que o aparelhinho faz? Dispara ondas eletromagnéticas “alfa” ao cérebro, que as capta através da enzima que mencionei e as devolve em forma de ondas eletromagnéticas “beta”, carregadas de informação, ao Minder. O aparelho então decodifica essas ondas e as transforma em resultados alfanuméricos, que aparecem na tela do Minder, numa lista rolável.

OP –  O senhor viveu boa parte de sua vida antes do Google Mind. O que mudou?

Ueniri – Ah, muita coisa. Mas acho que talvez a principal conquista que o Google Mind proporcionou tenha sido a liberdade de esquecer. Acabou aquela loucura que era ler mil notícias em um só dia e se desesperar por já ter esquecido, à noite, o que se lera pela manhã. O Google Mind nos fez atentar para o fato de que esquecer é não apenas a coisa mais normal do mundo: é necessário, é saudável, é essencial para viver com saúde. Universidades e empresas foram obrigadas a rever seus exames admissionais, já que decorar milhares de páginas e truques para ajudar a memória a recordá-las passou a não fazer o menor sentido. Hoje, depois do Google Mind, só sobrevive no mercado de trabalho quem de fato pensa, quem de fato entende as informações que recebe – porque afinal, para vomitar informações basta, hoje em dia, um click.

Com os anos, foram criados plugins e gadgets maravilhosos para o Google Mind. Meu preferido ainda é o “Vaga Lembrança”: quando alguém menciona o título de um livro como, por exemplo [hesita, tentando se lembrar]…

OP –  “O Som e a Fúria”…

Ueniri – … isso, e então eu sinto ter uma vaga lembrança de quem seja o autor, basta clicar e ele busca em minha memória o nome do dito cujo. Quer ver? [clica no ícone do programa na tela do Minder e digita o título do livro]. É de William Faulkner. Acertei?

OP –  Na mosca. E como o senhor avalia o impacto do Google Mind sobre a psicanálise?

Ueniri – Crucial. Porque hoje, qualquer pessoa, de seu próprio Minder, pode acessar com precisão memórias inclusive de períodos remotos da própria vida. Isso facilitou muito as coisas para os psicanalistas: basta um emparelhamento com o Minder do paciente para buscar e desbloquear, em fração de segundos, memórias da infância (e mesmo intrauterinas) que antes por vezes só eram recuperadas após décadas de análise – ou com a ajuda de chás de cogumelos ou rituais xamânicos.

Nosso próximo passo é lançar o “Unconscious”, um plugin que recupera memórias do Inconsciente, as chamadas experiências “recalcadas”. Com isso, esperamos que a qualidade de vida dos usuários melhore muito, já que vai ser mais fácil identificar desejos reprimidos que originam traumas e complexos – o que com certeza irá representar uma mudança de paradigma do próprio processo de formação do Inconsciente humano. Tem muita novidade ainda por vir.

OP –  E a qualidade de vida do senhor, após o Google Mind, melhorou?

Ueniri – Muito. Aqui em casa, por exemplo, acabaram-se as discussões entre mim e minha mulher. Não tem mais negócio de disse-me-disse. Quando começamos a discutir, paramos a briga e puxamos pelo Google Mind quem disse o quê, quem prometeu o quê. (Nem precisa dizer que ela sempre tem razão…)

OP –  E alguma coisa ficou pior?

Ueniri – Sim. O assédio de vocês jornalistas. Já passaram 15 anos e ainda vivo sendo procurado para dar entrevista. O que me consola é poder esquecer todas elas.

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