O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera o meu nome
João Cabral de Melo Neto

El amor es la prórroga perpetua, siempre el paso siguiente, el otro, el otro
Jaimes Sabines


Era esperar a cidade dormir e agir. Muro alto, cachorro, cerca. Nada disso nos impedia. Se preciso fosse, íamos até os bairros mais retirados para encontrar um só exemplar que valesse a pena.

Quando avistávamos a presa, a ação era rápida e quase sempre certeira. Canivete na boca, um talho seco, a flor na mão e a corrida até um lugar seguro, onde escrevíamos os bilhetes e planejávamos a entrega.

Éramos ladrões de rosas.

Praticado o delito, deixávamos na casa de nossas pretendidas o produto do roubo acompanhado de uma mensagem de amor.

O dia seguinte era ainda melhor. Mãos machucadas (às vezes com espinhos presos às unhas) e o coração na boca. A rosa seria entregue? A chuva, um pai ciumento, uma irmã ou empregada invejosas, vários eram os fatores que poderiam colocar o trabalho a perder.

E depois ainda tinha a aflição de cruzar com a amada na rua e esperar por algum sinal: a flor chegou? Agradou?

Certa vez gastamos horas até achar uma roseira. Meu amigo apaixonado cortou a flor e fomos para o lar da pretendida. Depois de pular o pequeno portão da casa, ele encontrou no carpete, em frente à porta, uma rosa. Um concorrente havia chegado antes e deixado o presente. Mas o Romeu não se abalou. Retirou da rosa (que era bem mais bonita do que a que ele trazia nas mãos) o bilhete do rival e colocou no lugar a sua mensagem dirigida à moça.

Acabei por me mudar de cidade, perdi o contato com todos aqueles delinquentes e não sei como eles lidam hoje com essas lembranças. Quanto a mim, tenho convicção de que foram naquelas madrugadas que essa crença ingênua, essa confiança cega e sem sentido que tenho no amor começou a se forjar aqui dentro.

Jamais imaginei que aquela simples brincadeira, aquele passatempo de adolescentes deixaria, tantos tempo depois, essas marcas tão profundas que hoje carrego; essa convicção de que nunca serei indiferente a uma rosa.

Ricardo Viel escreve às segundas

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