Não, não é para trocar o tapete amarelo pelo vermelho. É para trocar a lâmpada roxa pela laranja, para ficar parecendo o pôr do sol. Foi isso que falei. Você nunca ouve o que eu digo. Queria que me escutasse ao menos uma vez, mas você sempre está muito ocupado em ir para a rua. Como se na rua existisse algo que não há aqui. Você diz que quer ver o mar. Não há nada demais no mar. Se eu te contar como é, é capaz de você ver depois com seus próprios olhos e não achar graça nenhuma e sentir saudade do que imaginou quando eu estava falando. Nunca é possível se consolar com o que os olhos vêem. O mar é um mundo de água salgada, de onde às vezes vêm ondas. As ondas são feitas pelo vento e têm a beira branca. Só isso. Está vendo?

Tem tantas coisas que eu queria te explicar, para você não entender. Tá bom, pode ir. Eu fico aqui sozinho, esperando você voltar. Muitas vezes estive defronte ao mar, duas vezes arrumei coragem e botei os pés na água. É uma paz e uma solidão, mas não essa acompanhada, que é a solidão inevitável de quando se vive no meio de gente. É a solidão de saber que tudo já existia antes de você chegar aqui e vai continuar existindo quando você se for. A menos que o mundo acabe, mas isso nunca vai acontecer. Eu era muito pequeno e ficava imaginando que o mundo pudesse acabar, e isso me dava muito desespero. Você já tentou ver o que está por trás do escuro? O que existe quando você fecha os olhos, naquele canto que fica lá no fundo? Era esse tipo de desespero.

Mas você também pode arrumar um modo de pensar que o mundo começou quando você nasceu e com sua morte ele se acaba. Eu era muito pequeno, você nem existia, e ficava imaginando o que ia fazer da vida, mas foi a vida que fez comigo. Me dá vontade de pedir desculpas para quem eu era, mas ele felizmente já está morto. É um consolo. Estou contando tudo isso para você nem sei por quê, com a impressão de que já falei de tudo isso antes, mas de outro modo. Queria resgatar esse outro modo, essas mesmas palavras, para ser de novo a mesma coisa.

Ainda bem que você voltou e assim pode me ouvir melhor. Vou repetir. O tempo. O inexorável. O irreversível, imutável, inflexível, implacável. A angústia de não poder ter nada de volta, nem por um segundo, nem quando se está com muita vontade, nem quando se reza. Quem aprende a conviver com essa circunstância talvez seja capaz de viver no presente. Mas não há nada mais impossível, te aviso. Você pode tentar, está no seu direito.

Quando eu era mais moço a coisa que mais me dava agonia era ver o dia entardecer. Agora eu gosto, é como se tivesse companhia. Essa luz laranja cai bem. Você, me diz agora, acha que sobra alguma coisa que é a melhor do mundo para cada pessoa? A melhor mãe, o melhor bolo de fubá, a melhor cama, o melhor cafuné… Sabia que quando acreditava em Deus ele fazia cafuné na minha cabeça antes de eu dormir? Mas depois a idéia de Deus passou a me agredir, me senti traído e por muitos anos tive raiva dele. Como ter raiva de alguém em quem não se acredita? Mas se pode ter raiva de alguém em quem não se acredita mais. O fato é que não me serviu de nada não acreditar, enquanto crer tem muitas serventias. Você foi ontem à missa? Faz bem.

Estou olhando pela janela e vendo a legião de homens que já passaram pela terra. Está quase na hora de eu aparecer. Os primeiros sabiam para onde ir, depois os outros foram se perdendo, sem avistar o caminho. Fazer parte disso é o que? Não tem importância. A questão é aprender a viver com o inexorável, com a irrelevância. Não tenho exemplos para dar. Exemplos de que foi possível. Mas há uma beleza. Se você conseguir encontrá-la. Houve? Ouve?

Tatiana Mendonça escreve às sextas

Anúncios