Caros leitores:

é com pesar que informo que o texto programado para a edição deste domingo foi censurado. Isso mesmo: CENSURADO.

O texto já estava pronto há dias, na página; as rotativas já estavam ativadas; mas qual não foi minha surpresa ao receber, na noite de ontem, na sala que ocupo no sétimo andar do prédio onde funciona a Redação de O Purgatório, um senhor trajando terno preto e gravata, bengala, bigode e um charuto insolentemente aceso, que puxou do bolso uma credencial com brasão do governo (documento cuja existência eu jamais houvera imaginado) e fez-me ver, na mesma, sua fotografia acima de um enigmático codinome: Senhor F. Deixou cair sobre minha mesa uma versão impressa do texto programado para este domingo (ao qual não sei como teve acesso) coberta por um truculento carimbo vermelho em que se lê a sigla DEPOC (cujo significado, sopra-me o Google, é Departamento Endopsíquico de Proteção Onírica e Censura). Desconheço tal órgão mas, confesso, temi. Afirmou, em seguida, puxando um forte sotaque que creio ter sido alemão, que o texto não sairia na edição desta semana de O Purgatório, já que o tal órgão o havia “retido para averiguações”. Notei no bolso esquerdo do homem a forma do que supus ser um trabuco e preferi não argumentar. Ele então recolocou seu chapéu (que, asseguro, não portava quando entrou na sala), aspirou uma pitada de rapé, deu um espirro, virou-se e foi-se embora sem dar atenção ao café que dona Orlinda, nossa copeira, havia servido, delicada. Ela, pelas costas do homem, fez um muxoxo e fechou-lhe a cara.

O texto censurado intitula-se “Carta de Guigo Maifrén a Nilma Moreno, então sua amada” e permanecerá purgando em nosso arquivo até que seja liberado para publicação. Protestos, pedidos e apelos do público serão bem-vindos: o clamor popular não constitui evidência jurídica, mas sempre serve como elemento de pressão. Nossos advogados já foram acionados, e uma audiência visando desembargar o texto deve ocorrer ainda hoje.

Na falta de tempo para produzir material original para o lugar do texto censurado, ofereço-lhes à leitura, neste domingo, uma coluna curta do mestre Gabriel García Márquez, publicada em julho de 1948 na seção “Punto y aparte” do jornal El Universal de Cartagena, na Colômbia. A publicação em espanhol é a prova da urgência e da veracidade de meu relato, uma vez que não houve tempo para que providenciássemos versão traduzida. Leitores não dispostos a enfrentar o idioma estrangeiro podem saltar diretamente para o último parágrafo.

Y pensar que todo esto estará alguna vez habitado por la muerte. Que esta cálida madurez de tu piel, que sube por mi tacto hasta el abismo de mi desasosiego, tiene que desgajarse un día sobre su propio silencio desolado. Que este orden de cosas naturales, que hacen de ti y de mí y del agua y los pájaros, claros volúmenes para la vendimia de los sentidos, estará una tarde hundido en la niebla de lejanas comarcas. Que ese temblor de voces interiores que sube por tu sangre, que se anida en tu vientre como un hijo, cuando te hablo de cosas simples, elementales, como estas cosas tremendas de que estoy hablando, tiene que estar un día trasladado a otro cuerpo, cuando los nuestros sepan del peso de las piedras, y sin embargo siga siendo verdad el amor. Que este dolor de estar dentro de ti, y lejano de mi propia sustancia, ha de encontrar alguna vez su remedio definitivo. 

Pensar que alguna vez conoceremos los puertos del olvido, igual que antes, cuando aún no habían venido estos cuerpos a habitar nuestra tristeza. Que los hombres caminantes tendrán que sorprenderse alguna vez de que todos los pájaros enmudezcan de pronto, sin saber que eres tú, y que soy yo, que hemos vuelto a encontrarnos más allá de nuestros huesos. Que una tarde regresarán los bueyes del arado con las cuchillas iluminadas de una amorosa claridad, y todos creerán que hay estrellas sembradas, sin saber que eres tú, y que soy yo, que estamos preparando las semillas. Que un domingo como éste sonarán las campanas con bronce estremecido y los niños preguntarán asombrados quién ha muerto en domingo; sin saber que eres tú, y que soy yo, que aún seguimos muriendo en todas las preguntas.

Pensar que alguna vez los árboles preguntarán a sus raíces cuándo van a pasar los vidrios de nuestros ojos para que sea más clara la luz de sus naranjas. Que el agua de los ríos nos llevará, polvo a polvo, hasta el júbilo de los que tuvieron sed y la mitigarán con nuestra arcilla. Y que cada una de las cosas que amamos seguirá siendo bella sin necesidad de que nosotros la amemos.

Y, sobre todo, pensar que este amor nuestro tiene que morir, antes de que estas cosas pasajeras estén habitadas por la muerte.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos (sempre que lhe permita a Censura).

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