Meu amigo me esperava em frente ao hotel. Com ele estava um careca. Como achei que o sujeito era seu colega de trabalho, perguntei se não queria vir conosco. Ele aceitou.

No bar, a confusão foi esclarecida.  Meu amigo desceu para fumar um cigarro e ali estava o nosso convidado, que mora no hotel há seis meses. Um pediu fogo ao outro e então eu cheguei. Sequer sabiam seus nomes.

Durante as quatro horas que estivemos comendo e bebendo, o desconhecido nos contou sua vida. Tentarei fazer um resumo do que escutei, com o cuidado de omitir as partes mais fantásticas (vi nos olhos dele que era tudo verdade, mas sinto que o leitor não iria acreditar).

“Saí de casa aos 17 anos para conhecer o mundo. Aos 22, virei marinheiro para combater meu maior medo. Um dia eu estava com uma namorada na praia e  ela me perguntou qual era meu maior medo. Eu falei que era o mar. Percebi que precisava superar isso.

“Na primeira vez que entrei em um navio, passei 77 dias viajando – só quatro deles em terra. Nessa viagem, enfrentei uma tormenta com ondas de 30 metros, no Caribe. Pensei que era só mais uma, mas quando vi o capitão de salva-vidas, me assustei. Foi a pior que enfrentei. Sete anos depois, esse mesmo barco, com o mesmo capitão, naufragou nesse mesmo lugar.

“Estive em três oceanos e uma centena de cidades. Na Coreia do Norte, meu barco quase foi afundado pela marinha. Conheci piratas, passei semanas dentro de um barco fugindo  de um ex-campeão de boxe que queria me bater de qualquer maneira, e  vi peixes e lugares indescritíveis.

“Depois três anos no mar, achei que ia enlouquecer. Conheci muito cara que depois de 30 anos nessa vida não conseguia mais ficar em terra firme. Decidi parar, mas acho que um dia eu volto. O mar é uma prisão, mas você acostuma.

“Então fui trabalhar numa multinacional, como auxiliar de qualquer coisa. Já faz 20 anos, hoje tenho cargo de gerência, mas não estou nisso pelo dinheiro.

“O mar me ensinou muita coisa. A maior lição que tirei é que você pode ser um grande capitão, mas se tua tripulação for ruim ou não estiver do teu lado, a viagem vai ser terrível.

“Você pode andar pelo mundo, mas tem que ter o seu porto. Estou há mais de dez anos longe do México, mas sou de lá. Vera Cruz é minha casa. Se você ainda não achou o seu porto, não se preocupe. Ainda há tempo. Quando encontrar, você vai saber que é a hora de jogar tua âncora.”

*Ricardo Viel escreve às segundas

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