São dois os tipos de admiração que se pode sentir por alguém. (Peço licença aos amigos de longa data para repetir reflexão já gasta.)

O primeiro, de menor potencial transformador, é a chamada “admiração distanciada”. É como um aprendiz de bossa nova admira os solos de guitarra de um David Gilmour: ele paga o preço do ingresso, assiste e aplaude, mas não deseja profundamente trocar a própria existência pela de quem vê no palco.

Bem mais excitante é a segunda categoria, a “admiração invejosa”. É como o mesmo aprendiz de bossa nova admira João Gilberto: paga o preço do ingresso, assiste e aplaude, mas, se pudesse, pagaria qualquer preço para ser o ser admirado.

Admirar desta segunda maneira alguém, vivo ou morto, eleva o espírito até além dos limites do deleite. Na conjunção entre admirador e admirado, o primeiro sente de fato ser o segundo. Revela-se, pela duração do grato e transcendental encontro das almas, algo que, de inominável, talvez seja a essência da existência. O céu. O problema é que, cessado o encontro, o admirador volta a habitar as próprias – as intransponíveis – fronteiras de seu ser, e o admirado volta a ser distante alteridade. Retorna-se à solidão terrível ou maravilhosa (haverá quem diga “sã”) de ser-se apenas quem se é. O inferno, no princípio; depois, com o tempo, o purgatório.

Poupo-me de listar aqui as tantas pessoas que admiro invejosamente – não seria capaz de lembrá-las todas. A propósito: admiro invejosamente gente que se lembra de tudo. Quem recorda e até cita, no instante em que vê algo novo acontecer, reminiscências que só os arquivos sabem de cabeça. Repugna-me, sublinho, o prazer academicista da citação estéril; o que encanta nas boas memórias é a fértil virtude de iluminar o presente, de mostrar-nos que a novidade, no fundo, inexiste, e que o tempo é uma espiral infindável de cenas que, sorrateiramente, se repetem.

Pois: uma das poucas histórias de que me lembro de cor é a do profeta Moisés. Cito sem consulta (não juro) que no capítulo 14 do livro de Números, o povo “de dura cerviz” escolhido pelo Senhor esperneia no deserto. Qual terra prometida, qual Moisés, qual nada: querem é comer carne, e já! Sádico, o irado Jeová lhes manda a carne almejada. Mas carne “até sair pelas narinas”; e depois uma praga, em punição.

Repito: sou mais talhado para o esquecimento do que para a lembrança. Sou capaz de lembrar dessa história porque, há coisa de três meses, recebi na Itália três amigas russas e o marido de uma delas, belga e também amigo. Fomos passear em Milão e eu lhes disse: quando tivermos fome, esperemos até a noite, porque conheço um lugar onde comeremos muito e bem, e barato. No fim do dia, rumamos à refeição prometida. Como não lembrava o endereço exato, lhes disse: esperem, vou procurar o restaurante. Corri e achei o bendito, três quarteirões adiante. Voltei ofegante para buscá-los e qual não foi minha surpresa: flagrei-os no meio da rua abocanhando a venenosa carne de hamburgueres do McDonalds.

Fiz menção em chatear-me mas, ao contrário de Jeová, prefiro o riso: ocorreu-me na hora que era a história de Moisés que, sorrateira, se repetia. Ergui o indicador feito profeta e contei o causo bíblico. Gargalhei com meus caríssimos amigos de dura cerviz. E fartei-me sozinho com o banquete.

Por ter dominado minha memória, provei naquela hora (jamais esquecerei) a intensa sensação de ser alguém que profundamente admiro. Mas que ninguém me pergunte quem fui: não saberei lembrar.

*Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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