Há tempo-luz, quando Deus ainda comandava a vida dos homens, eles foram felizes. Não havia dor de parto, as crianças nasciam sorrindo, o entendimento entre os povos prescindia de escrituras. Isso até a rebelião, quando exigiram encontro com o Supremo. Deus infinita bondade resolveu transpor incomodidades e vir à Terra, coisa que fazia apenas uma vez por ano, para as apresentações comemorativas dos colégios.

Pois reclamavam os homens que aquele excesso de felicidade começava a incomodá-los, que estavam fartos de ver a vida fluir para um jardim de perfeita harmonia. Sentiam aquela saudade que se tem do que não se conhece e vigorosamente o exigiam. Deus tentou explicar que não era bem assim, sempre se podia abrir um novo parque aquático para divertir o tédio, mas o que responderam, de modo pouco educado, foi que estavam cansados principalmente dos parques aquáticos.

Deus infinita sabedoria penitenciou-se por não ter previsto o comportamento que os muito agradecidos têm por fim. Voltou chateado pensando que jeito daria a isso, enfadado também ele, com a paciência curta para os que criou à sua semelhança. É difícil ver-nos sempre nos outros, pior se há irmão gêmeo, como era o caso multiplicado a níveis que só podiam ser catastróficos.

Fez consultas e pesquisas de arquivo e saiu-se com uma que achava possível. Convocou assembleia com os dez melhores escritores do mundo (só tinha lido uns três, mas confiava na análise de assessores). Chegaram todos quase ao mesmo tempo. Alguns tentaram dizer que não tinham o que criticar do sistema, estavam satisfeitos com seus versos de sol brilhando no cabelo dos meninos que correm pela praia, mas outros agradeceram o convite e suplicaram a morte para livrar-lhes daquele inferno. Eram os que mais queriam ser tristes e não tinham meios.

Antes de explicar a proposta, Deus gastou muito tempo falando de como estava velho, tão velho, tão velho e os problemas todos que isso traz. Não tinha mais estrutura para tanto. Depois perguntou o que achavam de cada um deles responsabilizar-se pela vida de um homem, a princípio como experiência, posteriormente o projeto poderia ser estendido e ninguém ficaria sobrecarregado, garantia. Prometeu que não se meteria, mas podia fingir continuar existindo enquanto descansava.

Ficaram todos perplexos. O único verdadeiramente modesto lembrou-se de perguntar o que seria da vida do homem a quem um mau escritor fosse destinado. Deus respondeu prontamente que já tinha pensado na questão e que não havia remédio. “Se for ruim, paciência. O que eles me pedem é o que terão enfim”. Fim.

*Tatiana Mendonça escreve às sextas

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