Assisti aos primeiros capítulos da novela “Cordel Encantado”, da Globo, que mistura personagens arquetípicos e situações clássicas dos cordéis nordestinos. E confesso que me peguei pensando no romance Polígono das Secas, de Diogo Mainardi, que li em 2006.

No livro, Mainardi também mistura diversos elementos das narrativas nordestinas com engenhosidade, e se dedica a pulverizá-los no curso do enredo. Em alguns momentos do livro fica claro um certo desprezo do autor pelos personagens e histórias, porque elas seriam arremedos do imaginário medieval europeu.

Na época – não sei como resistiria a uma segunda leitura – me pareceu um bom livro, bem escrito. Mas a premissa, o sentimento do qual ele parte, continua a me soar de uma grandessíssima babaquice e de um elitismo calhorda.

Ultimamente, acho que há mais ideias equivocadas do que textos ruins. Isso pode explicar o nível impressionante de elogios a tantos canalhas que falam (muito bem) em jornais e revistas e tanta gente que eventualmente escreve grandes (ou pequenas) babaquices muito bem escritas em redes sociais e blogs.

O fenômeno talvez possa ser explicado também pela influência que tiveram aqueles queridos professores de história esquerdistas do segundo grau. Em que pesem as suas boas intenções, eles também podem ter nos deixado a impressão equivocada de que os “maus” costumam ser burros e/ou incompetentes.

O maniqueísmo de alguns daqueles professores, que tinha um objetivo pedagógico nobre quando éramos adolescentes, também pode, sem que eles assim o quisessem, ter nos deixado despreparados para as ideias perniciosas que nos seriam muito bem apresentadas no futuro.

Os bons textos são armadilhas instigantes porque tornam mais difícil, em um primeiro contato, detectar a ignorância, o preconceito, os falsos argumentos.

Volta e meia, acho que caímos na armadilha do bom texto. Damos valor a uma série de ideias canalhas, talvez porque não esperávamos que canalhas escrevessem tão bem. Me pego pensando se estaremos na era dos canalhas competentes, aqueles com “opinião crítica” e “humor ácido”. Bons twitteiros, bons blogueiros, bons colunistas. Nos sobram ideias sobre o que é um texto bem escrito e nos faltam ideias sobre como lê-lo.

Ao contrário dos bons escritores, que estão, aparentemente, em cada esquina, os bons leitores precisam ser buscados com afinco. O inferno, enquanto isso, permanece cheio de bons textos.

*Camilla Costa escreve às quintas

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