Ricardo Piglia é um escritor querido. Sei pelo que leio sobre ele, porque ele, ele mesmo, já tentei, mas nunca li. Muita gente elogia Piglia. Tanta gente que às vezes tenho a impressão de que o que se fala, fala-se não mais de seus textos, mas de sua pessoa. Ou da pessoa que cremos que ele é.

Escrever não é a unica maneira de criar personagens e, desconfio, Piglia já sabia disso antes de mim.

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Li no jornal outro dia uma matéria sobre diários. No meio do texto, Ricardo Piglia. Ele escreve – “mantém” é o verbo – um diário desde 1957. Alguns trechos ele vendeu para o jornal publicar. Os outros 54 anos – inéditos, já perfilados, cronológicos e diacrônicos – devem virar livros.

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Ricardo Piglia caiu como exemplo, e usar uma pessoa como exemplo de uma ideia não é nunca uma boa ideia. Não vou crucificá-lo. Mas não posso deixar de dizer que ele me faz pensar que talvez não haja tanta diferença entre lutar por 15 minutos de fama e dar a deixa, distraidamente, para ser falado pelos próximos… 54 anos.

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Outro que não li foi Roberto Bolaño, de quem também se fala muito, e muito bem. Não li mas tenho certeza de que os seus diários do México contam um episódio picaresco (ô palavra) de sua adolescência. Roberto Bolaño roubava livros. Mais: os melhores livros que leu foram justamente os que roubou.

A conclusão é perfeita para um personagem-escritor, por sua carga de subversão e inteligência.

Eu, que comecei o texto colocando Piglia como exemplo desta figura fantasma que é o escritor midiático (ninguém provou sua existência, mas noticias de suas aparições são sempre assustadoras), poderia me sentir tentado a usar essa revelação para incluir Bolaño no cesto, com ar de razão.

Mas aqui eu me solidarizo. E faço par a sua confissão: eu também já roubei.

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Quando alguém abrir o meu diario, daqui a 50, 100 anos, vai saber que dos 28 aos 30 vivi em Paris como estudante e trabalhei como babá.  No dia 9 de abril de 2011 estará escrito assim: “O menino dormiu cedo, então fui para a cozinha. Tinha duas horas antes dos pais voltarem. O armário estava meio vazio (já vi melhores), mas tinha uma caixa de Petit Ecolier (biscoito com barra de chocolate por cima), Côte D’Or com amêndoas e uma Pringles. Tomei o cuidado habitual de não esvaziar nenhum pacote”.

Comer escondido o que não me pertencia e o que eu não podia comprar dá um gosto especial à coisa. Não estarei mentindo se disser que foram os melhores lanches que já fiz.

*Edmundo Wilson é o convidado especial desta terça

 

 

Os biscoitos de Bolaño

 

Ricardo Piglia é um escritor querido. Sei pelo que leio sobre ele, porque ele, ele mesmo, ja tentei, mas nunca li. Muita gente elogia Piglia. Tanta gente que às vezes tenho a impressão de que, o que se fala, fala-se não mais de seus textos, mas de sua pessoa, ou da pessoa que cremos que ele é.

Escrever não é a unica maneira de criar personagens e, desconfio, Piglia ja sabia disso antes de mim.

 

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Li no jornal outro dia uma materia sobre diarios. No meio do texto, Ricardo Piglia. Ele escreve – « mantém » é o verbo –, mantém um diario desde 1957. Alguns trechos ele vendeu para o jornal publicar. Os outros 54 anos – ineditos, ja perfilados, cronologicos e diacronicos – devem virar livros.

 

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Ricardo Piglia caiu como exemplo, e usar uma pessoa como exemplo de uma ideia não é nunca uma boa idéia. Não vou crucifica-lo. Mas não posso deixar de dizer que ele me faz pensar que talvez não haja tanta diferença entre lutar por 15 minutos de fama e dar a deixa, distraidamente, para ser falado pelos proximos… 54 anos.

 

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Outro que não li foi Roberto Bolaño, de quem também se fala muito, e muito bem. Não li mas tenho certeza de que os seus diarios do México contam um episodio picaresco (ô palavra) de sua adolescência. Roberto Bolaño roubava livros. Mais : os melhores livros que leu foram justamente os que roubou.

A conclusão é perfeita para um personagem-escritor, por sua carga de subversão e inteligência.

Eu que comecei o texto colocando Piglia como exemplo desta figura fantasma (ninguém provou sua existência, mas noticias de suas aparições sao sempre assustadoras) que é o escritor midiatico, poderia me sentir tentado usar essa revelação para incluir Bolaño no cesto, com ar de razão.

Mas aqui eu me solidarizo. E faço par a sua confissão : eu também ja roubei.

 

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Quando alguém abrir o meu diario, daqui a 50, 100 anos, vai saber que dos 28 aos 30 vivi em Paris como estudante e trabalhei como baba.  No dia 9 de abril de 2011 estara escrito assim : « O menino dormiu cedo, então fui para a cozinha. Tinha duas horas antes dos pais voltarem. O armario estava meio vazio (ja vi melhores), mas tinha uma caixa de Petit Ecolier (biscoito com barra de chocolate por cima), Côte D’Or com amêndoas e uma Pringles. Tomei o cuidado habitual de não esvaziar nenhum pacote».

Comer escondido o que não me pertencia e o que eu não podia comprar da um gosto especial à coisa. Não estarei mentindo se disser que foram os melhors lanches que ja fiz.

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