Os tempos coloniais e a posterior formação autônoma da economia brasileira segregaram a Amazônia da dinâmica dos Estados do Sul e do Sudeste. O Norte do Brasil, muitas vezes imerso em conflitos provocados por assimetrias com fortes origens regionais, historicamente tem uma realidade que dificilmente pode ser compreendida pela população dos principais centros urbanos do país.

Na mais recente crise amazônica, porém, o contexto é diverso. A revolta dos operários de Jirau, que provocou a paralisação de um dos principais empreendimentos do PAC, está relacionada a um fenômeno que influencia os rumos do mercado de trabalho em metrópoles como São Paulo, Rio de Janeiro ou Porto Alegre.

Ao passo que o skyline das cidades brasileiras vai sendo ocupado por novos arranha-céus, aumentam as dificuldades para as construtoras recrutarem mão-de-obra para seus empreendimentos mais arrojados. Já nos escritórios, as empresas têm dificuldade para manter os especialistas em administração, contabilidade e economia, já que eles são cada vez mais assediados por ofertas de trabalho de outras companhias em expansão. É essa mesma conjuntura de crescimento da economia, que permite ao trabalhador de um grande centro buscar melhores salários, que incentiva os operários da Amazônia a protagonizar revoltas como a ocorrida em Jirau.

Até hoje, os conflitos amazônicos sempre haviam tido impacto marginal no todo da realidade nacional. A exploração da Serra Pelada nos anos 1980, é um exemplo: ocorreu sob um esquema de trabalho primitivo e improdutivo que se explica somente por interesses políticos do governo, que precisava de uma válvula de escape para a década perdida. Mas sua dinâmica teve pouca influência nos rumos da economia brasileira. Desta vez, entretanto, o que acontece em Rondônia, quase na fronteira com a Bolívia, tem relação direta com o presente e o destino dos próximos anos do Brasil da mesma forma que o que acontece nos grandes centros urbanos.

*Pablo Solano escreve às terças

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