por Emanuella Sombra

Diz-se que um bom acarajé é feito da proporção correta entre o feijão fradinho e a cebola picada, e que sua massa deve ser batida até que fique aerada. É fundamental que seja frito em azeite espesso e de boa qualidade, desses que vêm do Pará em embalagens sem rótulo que, estacionadas sobre a prateleira, decantam em várias gradações do laranja ao acaju.

Qualquer um pode fazer um bom acarajé, poderia dizer o chef Auguste Gusteau, guru invisível de Ratatoulle.

Qualquer um que arme seu tacho nas delimitações de Salvador – corrigirão meus amigos, nos quais aticei as lombrigas mais bairristas ao dizer, no Facebook, que havia comido em São Paulo um bolinho tão bom quanto o de uma famosa baiana do Rio Vermelho. Uma heresia tão grande quanto afirmar que os recifenses orientam o carnaval melhor que os soteropolitanos.

O fato me lembra um professor da faculdade conhecido por seus textos barrocos e excessivamente referenciais. Lê-los era como mastigar um acarajé massudo frito em dendê batizado com óleo de soja. Desse professor provávamos sempre aquele rocambole de palavras indigeríveis que reviravam nossos estômagos – digo, miolos– feito um acarajé ruim sem Coca-Cola.

Um belo dia ele nos surpreendeu com uma crônica despretensiosa assinada em uma publicação da época. Era tão leve que em nada lembrava o excesso de ingredientes dos outros textos; e tão boa que provocava em nós estranheza sobre sua autoria. Daquele lugar, de onde já sabíamos o que esperar, algo poderia nos surpreender tão bem?

Não quero dizer que os paulistanos são melhores. Nós, baianos, temos a expertise abençoada pelos orixás, e ninguém faz uma bola de fogo mais saborosa que Regina, a dona do meu tabuleiro predileto. Contrariando o método Gusteau de auto-ajuda, também não acho que qualquer um possa fazer qualquer coisa.

Mas convém à rotina se surpreender com um bom tempero, uma gentileza ou uma bomba de gás lacrimogêneo. De onde menos se espera.

Emanuella Sombra é convidada do Purgatório às quintas-feiras, quinzenalmente.

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