De todas as imagens de Luanda que pude ver, escolho a poética para deixar-lhes aqui de registro: um sol vermelho pendurado no meio da tarde, desenhando no chão a sombra de um majestoso baobá desfolhado; e o vento levantando poeira.
Sol sob o qual vi que de fato ardem muitas misérias, mas muito mais atenção do que elas me chamou o jeito de ser do povo, tão sorridente e barulhento, tão entropicamente parecido ao de nosso Brasil, ao desta Bahia em especial.
À guisa de fundo musical minha memória elege a canção que pude apreciar cantarem sete, talvez oito senhoras da comunidade do Zango, na periferia da periferia da cidade. Delas lhes pouparei de minha descrição imprecisa: vistam-nas com aqueles panos coloridos de nossa imaginação de África; ponham-lhes umas unhas coloridas salientes nos dedos dos pés rachados; dêem-lhes a pele enrugada do rosto daquelas senhoras das fotografias de Pierre Verger, e não estarão distante do que vi.
Mas sobretudo ouçam-nas, ouçam-nas entoar num ecumênico kimbundo ancestral a música que ensaiavam para cantar na missa católica de logo mais. E, se for o caso, deixem-se tocar pela melodia, pelas vozes, pela afinação imemorial capaz de elevar o espírito de quem ouve, de transformar tudo o mais ao redor em passageira banalidade.
Gana tukuatele renda, tuakuai tuxi – para quem quiser escutar, são só 4:57.
Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

1 comentário
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setembro 8, 2013 11:22 pm às 23:22
Eduardo Sarno
É a velha questão indagatória entre o primitivo e o civilizado. Se o hábito não faz o monge a gravata muito menos faz o civilizado. Depois de séculos de antropologia equivocada, é nas senhoras de Zango que vamos encontrar a raiz da civilização: o sentido de comunidade e a prática das emoções.
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