O título soa galhofa – pois somos todos filhos dos filmes aloprados dos anos 50 –, é, no entanto, resumo de dúvida séria: o que será da Cultura, se (ou quando) se confirmar a existência de alienígenas? Não, não, não menospreze a pergunta – eu menosprezei por anos, e agora mal durmo pensando sobre. Porque, veja, se considerarmos Cultura em sentido amplo, enquanto produto do homem e das relações entre os homens, resultado das trocas, sejam elas simbólicas, materiais ou mesmo alucinógenas, feitas no dia-a-dia e cujas expressões, além de artísticas, podem se revelar folclóricas, anedóticas, em termos de práticas, etc., etc., etc. – perceba como é saudável desprezar noções elitistas de campo – ou seja, se considerarmos Cultura como o resultado de nossa humanidade, é inevitável concluir, em consequência, que essa nossa Cultura irá desaparecer, ou perderá certo sentido vital, quando da descoberta de alienígenas, pelo simples fato de, a partir de então, nossa humanidade ser outra inteiramente diversa.

Que importa religião, roupas, comidas ou as comédias tolas da Globo Filmes, quando se percebe e se aceita uma condição ínfima dentro do universo? Que importa o Carnaval, a apuração das escolas de samba, os cabelos dos argentinos, quando temos, como vizinho planetário, um ser verde gosmento que, embora bastante simpático depois de o conhecermos mais intimamente, insista em escutar Funk Venusiano nas últimas alturas durante os finais de semana e pareça um Homer Simpson pós-mutação nuclear? Que importa o ciúme, a raiva ou até o amor, se convivermos com seres para quem essas emoções não passam de signos arbitrários, nos ridicularizando por sofrer dores de cotovelo? Mesmo o conceito de tempo, esse amigo mórbido, pode se tornar inválido: quem sabe os ETs não nos provem, como Vonnegut tanto tentou, que o sentido progressivo do tempo é uma ilusão cerebral, descerebrada, imposta pela nossa evolução natural para mantermos a sanidade, sendo na verdade um plano instantâneo e simultâneo – diferentes eras concomitantes, como um enorme tabuleiro de WAR – cuja aplicação mais imediata (e deleitosa) seria a viagem temporal ininterrupta, apesar dos paradoxos inevitáveis, gerando múltiplas dimensões paralelas em que o gato dentro da caixa não está nem vivo nem morto?

Assusto-me demais ao pensar sobre o assunto, demais, demais. Mas me assusta mais, confesso, é imaginar que esse cenário não é realidade do futuro, e que, se talvez a descoberta dos ETs ainda não tenha sido comprovada, já se tem muita gente por aí que é abduzida e não sabe. Não falo nem dos exemplos óbvios, vamos nos esquecer um pouco do Sarney e da Lady Gaga. Falo de pessoas comuns, encontráveis no dia a dia em um supermercado ou filas de banco, em pontos de ônibus ou com medo de pisar em pedras portuguesas pretas ao andar na rua, assinantes do Purgatório, fãs de David Lynch, amigos meus que estudam capas de Quadrinhos ou videogames em faculdade de letras (?) e que se apaixonam por cachorros com a cara do Floquinho. São essas as pessoas que me assustam. E talvez elas sejam mesmo extraterrestres: só assim para explicar o porquê delas continuarem lendo esse texto até o fim.


Davi Boaventura pensa em alienígenas, quinzenalmente, às segundas-feiras

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