por Moreno Pacheco

Em 1924, numa crônica publicada no Diário de Pernambuco, Gilberto Freyre rabiscou algumas ideias sobre a função social do moleque, um personagem que trazia em si a estética e a moral da rua. Com ele, burguês nenhum se arriscava a trocar ofensas. O moleque exercia um papel disciplinador quando penetrava qualquer sisudez em busca daquele ridículo mais bem escondido para mostrá-lo ao público. Por isso mesmo, o achincalhe deveria acontecer na rua, onde a fama do sujeito caçoado fazia sentido. E não no ambiente privado, onde a pilhéria seria inútil, porque seria clara a diferença hierárquica da relação.

Essa ideia da intromissão zombeteira deve estar na origem do venerado “futebol moleque”, que nos faz rir do mundo dos adultos quando zagueirões afamados são feitos de trouxas em jogadas que mais parecem invencionices de quem não tem compromisso com essa coisa de cânone. A reação violenta à humilhação (e o jornalismo esportivo parece assoviar em uníssono) é prova da falta de maturidade dos agressores. O moleque é um moleque, afinal de contas; sua tarefa é essa e ele cumpre com perfeição.

Quando Freyre escreveu sua crônica, o futebol talvez ainda tivesse pouco de Brasil. Mas anos mais tarde, em 1947, no prefácio de O Negro no Futebol Brasileiro de Mario Filho, Gilberto Freyre destacava como o futebol desenvolvido no país assumia um papel catártico em nossa sociedade. Ao dar vazão a nossa personalidade e se transformar num sumidouro para onde escoava tudo o que nos era mais “primitivo”, “jovem” e “elementar”, o futebol alheava nossos impulsos primevos de suas tendências mais degenerativas. Freyre arriscava a dizer, bem ao seu modo, que sem o futebol o “cangaceirismo” teria provavelmente evoluído para um “gangsterismo urbano, com São Paulo degradada numa sub Chicago de Al Capones ítalo-brasileiros”, que a capoeiragem teria voltado à carga com a polícia, com maior vigor, que o samba teria se conservado primitivo, africano, irracional, estranho às estilizações modernas que lhe conferiram vigor híbrido… e, enfim, que a malandragem teria se conservado “inteiramente um mal ou uma inconveniência”.

Mas houve o futebol. E o futebol desnaturava nossos elementos irracionais, transformando-os em vantagem híbrida. Mesmo num Domingos da Guia, o mais apolíneo entre os dionisíacos, cavucando encontraríamos um pouco de samba, um pouco de molecagem baiana e até um pouco de capoeiragem pernambucana ou malandragem carioca.

A associação entre molecagem, subalternidade e insubordinação é inevitável. Moleque, sendo palavra quimbunda, logo cedo figurou nos dicionários portugueses como sinônimo de criança negra. Aqui, o termo ficou marcado por sentidos negativos: ao moleque faltaria integridade, obediência às normas sociais, escrúpulos. Oliveira Vianna registrava expressões pejorativas que tomavam o termo de empréstimo (“procedimento de moleque”, “modo de moleque”, “ar de moleque”).

Já Gilberto Freyre torcia o nariz e achava que elas davam a falsa impressão de que o moleque fosse sempre um elemento ruim e desprezível, que se contrapunha ao decoro, à severidade e ao respeito social. Ao contrário, ele achava que a molecagem oferecia os ingredientes necessários para as injeções de novidades, graças a suas “liberalidades”, seus “excessos”, sua “volúpia do inédito”. Era preciso ser moleque na arte, na imprensa, na Academia Brasileira de Letras.

Desconheço se Freyre seguiu adiante com essa preocupação com moleques. Mas se ele recomendou, para o bem da vida, que conservássemos esse pândego eternamente em nossos corações, também é impossível ignorar o fato de que alguns moleques, eventualmente, envelhecem. Quando esse processo se realiza totalmente, eles tendem a assumir os papéis de que zombavam anteriormente e, daí em diante, observam os princípios de hombridade que regem a vida social dentro ou fora das quatro linhas.

Depois de um arranca-rabo que culminou na demissão de Dorival Jr., que foi seu técnico no Santos em 2010, houve um esforço de saneamento da imagem de Neymar diante de seus colegas, da imprensa e dos patrocinadores. “Nós estamos criando um monstro“, bradou Renê Simões na ocasião, convocando a nação para educar “esse rapaz”. Um ano depois e os ânimos já pareciam acalmados: Neymar admitiu os excessos e revelou que não conseguiu dormir após o episódio. Se isso é verdade, talvez o príncipe não tenha virado tirano ao ir adaptando sua molecagem ao jogo corporativo. Há recaídas, às vezes. Mas o lema geral que pretende guiar o seu crescimento parece ser “mais respeito ao estado das coisas, menos molequeira”. Ele deve ir diminuindo seus barroquismos, seus dribles para trás, os chapéus em Chicões ou Marcinhos Guerreiros.

Mas será que há como controlar sua subversão? Há como separar sua habilidade com a bola de seu escárnio do mundo ordenado dos adultos?

Menos dribles desnecessários, disse Parreira em fins de 2011, depois de uns malabarismos de Neymar diante da Argentina. “Mas o que o Garrincha fazia eu considero o mais memorável do futebol mundial”, ponderou, hesitante. Talvez ele não tenha parado para pensar se é possível equacionar as coisas assim, se dá para eliminar a molecagem sem lançar o moleque fora junto com ela. Os casos de Denílson e Robinho podem indicar até que ponto a ida a uma Europa desmolequizante, defendida pelo próprio Parreira, pode atrofiar carreiras promissoras.

Todos parecem torcer para que Neymar se adapte ao disciplinamento tático do Barcelona. Que pare de cair. Que faça assim ou assado. Eu, de cá, quero que ele faça o que quiser fazer. Mas torço para que ele continue moleque do tipo integral. Que aprenda e obedeça quando preciso, mas de soslaio, sem perder a malícia de desacatar e transgredir.

Em Barcelona, que venga el toro.

Moreno Pacheco é convidado especial dos sábados no mês de junho.

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