Uma pergunta curiosa feita à maioria dos escritores é “por que escrever”. Nas entrevistas que leio dos consagrados e dos novos, está lá, como um golpe baixo que o juiz não viu. Às vezes é o instante do desajuste, tantas outras é a brecha para o autor se dizer para além do protocolo – e alcançar qualquer ponto de nevrálgico, de pura perplexidade. Grandes frases vieram do instante em que um escritor precisou justificar-se.

Ainda com as consequências vantajosas, a questão não deveria ser feita a eles. Ou não apenas a eles. Bom, nem faz sentido perguntar a um escritor por que ele escreve, uma vez que é justamente o que faz. Talvez para as pessoas na rua, “por que você já escreveu uma carta de amor?”, “por que você deixou em um bilhete na mesa o que não teve coragem de falar em dez anos?”, “por que aquela frase atrás da porta do banheiro?”. E logo talvez não faça sentido perguntar também a elas.

A questão se torna real para mim em dois casos incríveis. O primeiro deles é de uma beata medieval, chamada Ângela de Foligno. Ela, assim como muito outros da mística ocidental e oriental, descreve a experiência do arrebatamento, que se toma como a união da alma com o todo divino, onde nenhuma mediação e nenhum símbolo, inclusive palavras, tornam-se mais necessários. Após o instante sublime, quando se tenta comunicar para outro o que aconteceu, apenas se chega à angústia da multiplicação das frases sem o ponto essencial. “Cala-te!”, disse certa vez Johann Tauler ao seu discípulo. “Tudo o que se pode dizer disto não é essencialmente verdade, antes se assemelha à mentira”.

O mesmo pensava Ângela de Foligno, mas ela não conseguia interromper o seu diário. Imprimia as suas visões em imagens com milhares de anjos, nuvens, cavalos alados e estouro de luzes. Entre as passagens poéticas, rasgava o papel com exclamações semelhantes: “Minhas palavras me fazem horror, ó suprema obscuridade, minhas palavras são maldição, são blasfêmias. Silêncio, silêncio, silêncio!”. E no dia seguinte prosseguia, sôfrega, nos escritos que dariam no O livro das instruções e das visões, para chorar-se inutilmente: “Eu blasfemo, eu blasfemo!”. Era-lhe impossível precisar com palavras o que só ela viu, ainda mais impossível era deixar de tentar.

O segundo caso está em Os Sertões de Euclides da Cunha. Na quarta expedição rumo a Canudos, as tropas param no município de Queimadas, alguns quilômetros antes da zona de batalha. Ali já haviam passado milhares de soldados, desde as primeiras aventuras do exército em sucessivas derrotas. Enquanto a estratégia se armava para a nova ação, Euclides deu uma volta pelo lugar e contornou uma igreja abandonada. Havia atrás de uma parede, uma quantidade sem fim de inscrições, todas de componentes das tropas.

O escritor batizou aquele quadro como “Páginas Demoníacas”, no capítulo “A Nova Fase da Luta”. Eis o trecho: “Todos os batalhões haviam colaborado nas mesmas páginas, escarificando-as a ponta de sabre ou tisnando-as a carvão, no gravarem as impressões do momento. Eram páginas demoníacas aqueles muros sacrossantos: períodos curtos, incisivos, arrepiadores; imprecações, e brados, e vivas calorosos, rajavam-nas em todo o sentido, profanando-as, mascarando-as, em caracteres negros espetados em pontos de admiração, compridos como lanças”. Mensagens, ameaças, homenagens, versos, de muitos homens que mal tocaram em um livro.

Por que todos eles precisaram escrever? Um dever – mas para quem? Uma necessidade – que atende ao quê? Nada de ofício, de vaidade, de autoterapia, de comunicação com pares. Na beata e nos soldados, há apenas o gesto, a reação original, aquela que quer também externar o arrebatamento de dentro, aquela que quer ainda marcar vida ante a proximidade com a morte. Mas estes casos não são exclusivos: tem proporções em cada um que veja e que viva.

Talvez os escritores de livros e textos sejam apenas representantes, embaixadores de uma população que lhe certifica e coaduna uma identidade. Sim, como os cantadores, que apenas encarnam a música dos camponeses em suas colheitas, dos santos em suas penitências ou das mulheres que ninam as crianças no rasgo de um bombardeio.

Saulo Dourado escreve às segundas, quinzenalmente

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