Juro que saí na segunda-feira à noite para comprar um terno bonito – meu primeiro, pago ademais de meu próprio bolso, sublinhe-se – para ir à formatura da turma de Comunicação da Ufba, os primeiros alunos deste inverossímil professor, que acharam ainda de honrar-me com a homenagem de “Amigo da Turma 2012.2 de Jornalismo”.

Juro, amigos, que comprei o terno. Teria que comprá-lo mesmo, daqui a uns meses, porque em setembro se casa minha prima, e eu serei padrinho; então, juntando isso com a formatura, julguei chegada a hora de finalmente ter meu terno próprio, para não mais ter que passar as raras noites de gala que me acontecem na vida sentindo o perfume de defunto habitual dos trajes alugados.

Provei o terno em casa, meus amigos, e juro que estava animado para exibir em vossa festa o corte italiano do fato (guardem essa, é como se diz terno em Portugal) e a gravata (que existe e é vermelha e branca, garanto).

Ocorre porém que, faltando dois dias para a festa, hesitei – hesitei como no passado não costumava, mas passam os anos e o homem começa a hesitar, é uma coisa – e achei de telefonar para certa pessoa que também participaria da festa, perguntando se a essas coisas se vai mesmo de terno, a qual me garantiu que não, que de terno não precisava não, que era demais, que deixasse aquilo para os pais dos formandos, porque, em anos de experiência em formaturas na Reitoria da Ufba, essa fonte (cujo nome preservarei, como bom jornalista) não se recordava de ter dividido mesa com gente assim enfatiotada.

De sorte que, chegado o dia da festa, do terno tomei apenas a calça, vesti a camisa de manga comprida, arrumei (assim creio) o desgrenho dos cabelos, entrei no carro e – crendo-me a salvo da gafe terrível de ser o único de terno na cerimônia – fui.

Juro, amigos, que levei o paletó e a gravata no banco de trás do carro. Juro, meus amigos, que perguntei às moças do cerimonial, antes de entrar no salão nobre, se era preciso vestir terno, que se fosse o caso eu corria no carro e pegava o bendito do terno. Ao que elas contestaram, cheias de decepcionada cordialidade, “o senhor fique à vontade”. E eu, só de camisa social e calça, apostei mais na cordialidade que na decepção e respondi que estava muito à vontade assim, obrigado. E elas me deixaram passar.

Não deviam, amigos – por que essa gente de cerimonial prefere ser polida a dizer a verdade? Porque, entrando, cumprimentei o funcionário homenageado – de terno. E chegou o paraninfo – de terno. E o vice-coordenador do Colegiado – de terno. (Este último aliás reparou, mas me tranquilizou dizendo que “tem problema não, amigo da turma pode ser assim mesmo, mais despojado”.) Confesso que nessa hora, amigos, quase saio correndo para ir buscar o diabo do paletó no carro, mas pensei que não, qual nada, afinal que tipo de homem pareceria que sou, que não sabe que a esse tipo de coisa não se vai sem um bom terno – exceto no caso de estar muito seguro e consciente de estar cometendo, deliberadamente, a grandissíssima iconoclastice de transgredir o protocolo.

O duro foi quando chamaram meu nome para compor a mesa de honra da solenidade – então caí em mim de que não havia mais jeito: teria que passar a cerimônia toda ali, em pé, entregando os diplomas, o único desarrumado ladeando todo aquele pessoal empertigado, meus colegas de terno.

Não foi de propósito, amigos, nem para quebrar o protocolo. Ademais porque protocolo só se quebra uma vez, de maneira que, se não tivesse gastado meu tiro com o paletó faltante, talvez tivesse quebrado o protocolo pedindo o microfone para fazer-lhes um breve discurso (pois, atenção você que não entende nada de cerimonial de formatura: amigo da turma não fala, o que fala é o paraninfo), um discurso bonito e natural, como os que costumava fazer há uns anos, quando era presidente do grêmio estudantil e ainda não hesitava na vida.

Vocês não se incomodem porque teria sido coisa breve, meus amigos. Teria-lhes lembrado apenas uma crônica de João do Rio, uma em que o eu-lírico (quer dizer, ele) conta como um dia chegara do interior, inocente, puro e besta, cheio de auspícios para viver vida de Redação, e fora recebido por um veterano jornalista, o qual tratou logo de tentar dissuadi-lo (de salvá-lo), contando do insalubre que era aquela profissão – conselhos aos quais ele, moço jovem, evidentemente não dera ouvidos. E então, vendo que o rapaz era mesmo caso perdido, passou o referido veterano a ensinar-lhe o que sabia, tendo o moço do interior vindo a tornar-se um grande jornalista – que, anos e anos depois, encontrar-se-ia na Redação do jornal, acolhendo agora, ele próprio, outro jovem vindo do interior, inocente puro e besta, ao qual tentaria, sem êxito, dissuadir… Isso para lhes dizer do quanto, antes do tempo e sem nem bem ter deixado de ser o moço do interior, do quanto me sinto um tanto como aquele veterano toda vez que cometo essa heresia ótima que é dar aula para vocês.

E quando toda essa conversa parecesse muito aziaga a vocês e a seus pais, meus amigos, aí mudaria de assunto, e lembrar-lhes-ia, como nos discursos bons, duas ou três frases de algum tomo da Antiguidade – talvez algum recorte da Retórica de Aristóteles, ou talvez, melhor, algum trecho escolhido da Amizade de Cícero, talvez aquele que diz que a grande vantagem da amizade é “conceber belas esperanças, para tudo que possa sobrevir, e não deixar que desfaleçam ou se acovardem os ânimos. Porque o verdadeiro amigo vê o outro como a uma imagem de si mesmo”, alguém “com quem se pode falar como se estivesse falando a si mesmo”. E – já terminando – diria que eu, como Cícero, prefiro ante ao poder, às honras, aos prazeres e até à saúde, que eu prefiro a amizade, e que se há algum proveito nessa nossa profissão de jornalista é justamente o de conhecer gentes e fazer grandes amigos – porque sossego afinal não se tem, tampouco dinheiro se ganha.

Enfim: se não fiz discurso nenhum, meus amigos, terá certamente sido porque, na falta do terno, hesitei. Vocês então por favor aceitem, no lugar de alguma fala inspirada, esta crônica humilde deste vosso humilde amigo. E aos pais de vocês, por favor não contem a verdade sobre o terno – eles se preocuparão ao saber que vocês tiveram por professor alguém que não sabe nem a roupa justa para se ir a um evento importante. Não os deixem, contudo, pensando mal de nossa profissão, pensando que com ela não se ganha nem o que chegue para comprar um terno – digam-lhes, em vez disso, que, se aquele professor mais à esquerda não usou paletó e gravata, foi de caso pensado, porque afinal um verdadeiro jornalista não se dobra ao que mandam os cerimoniais, não abaixa a cabeça aos protocolos. Porque um verdadeiro jornalista é, na alma, um informal.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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