Recentemente, li o primeiro volume de Getúlio, início da trilogia sobre Getúlio Vargas que o biógrafo Lira Neto completará até 2014. Nesse tomo inaugural, abarca-se o período que vai de seu nascimento, em 19 de abril de 1882, na cidade de São Borja, interior do Rio Grande do Sul, até a chegada à presidência, com a Revolução Liberal (1930), que deu cabo ao domínio revezado mantido pelas oligarquias paulista e mineira ao longo da Primeira República — a chamada política do café-com-leite. Os próximos volumes se debruçarão sobre o governo provisório pós-revolução, que se transformou na ditadura populista do Estado Novo (1937-45), e sobre o mandato legitimado por eleição (1950-54), cujo fim trágico se deu com seu suicídio — um tiro no peito, no dia 24 de agosto, e a famosa carta-testamento: Deixo a vida para entrar na história…

Ao todo, foram quase 20 anos no poder. Dos 48 aos 63 e, de novo, dos 68 aos 72. Contudo, quem retraça a trajetória pessoal de Vargas até os 35, pelo menos, não tem o menor indício de que, um dia, ele chegaria a ser quem foi. Ou metade disso. Vejamos:

Nascido e criado em fazenda, aos 15 ele vai para Outro Preto, fazer o ginásio e preparar-se para ingressar numa das renomadas faculdades do município. Mas, antes que seu primeiro ano ali acabe, os planos mudam: uma briga entre estudantes gaúchos e paulistas termina com a morte de um paulista, e a suspeita recai sobre um dos irmãos de Getúlio. O pai, seu Manoel Vargas, tem de ir pessoalmente à cidade, buscar os filhos. Getúlio vê-se obrigado a abandonar a escola.

De volta ao Rio Grande do Sul, o garoto decide entrar para o Exército, na esperança de conseguir uma vaga na Escola Preparatória de Rio Pardo. Para isso, tem de esperar dois anos, por causa do número restrito de vagas; somente em 1900, às vésperas do seu 18° aniversário, ele é aceito.

Seu intuito era passar três anos ali e, em seguida, continuar os estudos na Escola da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, porta de entrada para a conquista dos altas patentes da hierarquia militar. Mais uma vez, os planos dobram-se às circunstâncias. Em 1902, seu último ano como cadete da Rio Pardo, Getúlio envolve-se num protesto estudantil contra o abuso de poder dos instrutores e contra as condições insalubres das instalações. As reivindicações são taxadas de insubordinação e, como pena, os envolvidos são expulsos da escola. Seu pai, o velho Manoel Vargas, vira uma fera — ele, que aos 20 participara da Guerra do Paraguai e se tornara capitão.

Resignado, Getúlio continua a servir no batalhão de Porto Alegre, até terminar o período de caserna obrigatório, mas volta a estudar no ginásio civil, preparando-se para o ingresso na faculdade de direito, fortuitamente, fundada dois anos antes na capital gaúcha. Estamos agora em 1903, e Getúlio consegue uma vaga como aluno ouvinte na faculdade, enquanto não presta os exames admissórios.

Nova interrupção em seus planos. 1903 é o ano da Questão do Acre. Brasil e Bolívia quase vão às vias de fato pelo domínio desse território, e mesmo o contingente militar lotado no Rio Grande do Sul é obrigado a deslocar-se até a Amazônia e lá ficar por alguns meses. Passado o susto de uma possível guerra, Getúlio volta a Porto Alegre, entra na faculdade e, finalmente, aos 21, parece ter-se estabilizado e achado um rumo para si.

Dentro da faculdade, envolve-se com política e, graças à sua oratória, cai nas graças de Borges de Medeiros, o caudilho que governava o estado há décadas, de quem seu pai era aliado. Acaba deputado estadual, em 1907, aos 25. Pelos sete anos seguintes, a tese de que Vargas encontrara estabilidade mantém-se de pé. A vida se resume ao trabalho burocrático, sem perspectivas imediatas de ascensão política, dado o engessamento mantido por Medeiros; à família que começou a formar com dona Darcy em 1911; e à atuação como advogado em São Borja, onde passava a maior parte do tempo, já que os trabalhos anuais da assembleia duravam poucos meses.

Depois de sete anos de solidez, espera-se, no mínimo, uma oportunidade para evoluir, não é mesmo? Não foi bem isso o que aconteceu. Em 1914, o governador Borges de Medeiros, que se mantinha no poder instigando a rivalidade entre os aliados locais, decide abalar a hegemonia dos Vargas em São Borja, oferecendo cargos de poder a inimigos políticos daquela família. Getúlio, agindo contra a prudência, renuncia ao posto de deputado, para se dedicar exclusivamente à causa municipal e familiar. Se isso o instigava, se lhe dava alguma injeção de ânimo diante de possível monotonia que o acometesse? A tirar pelas suas cartas aos amigos, não. Escreve numa delas:

“A vida aqui se paralisa, chumbada a um mesquinho conflito de ambições aldeãs, pequeninas, rancorosas e nauseantes. Sem nada que me atraia, nao posso, por dever moral, me desembaraçar delas. Apenas, de quando em vez, a necessidade de ação, exigindo um dinamismo de energias, desvia-me dum horizonte sem relevos, onde só se ouvem os mexericos das comadres.”

A luta pela poder municipal consome três anos de sua vida. Até que, provada a força local dos Vargas, Medeiros volta atrás e faz as pazes com a família, levando Getúlio de volta — agora, muito mais respeitado aos olhos do governador — à assembleia estadual, em 1917, e, em 1923, à câmara federal. É quando sua vida no centro do poder, no Rio de Janeiro, inicia-se. Mas paremos em 1917. Getúlio aos 35 anos. Ainda 13 anos distante de começar a ser o Getúlio Vargas que conhecemos dos bancos da escola.

Será que, até os 35, alguma vez passou por sua cabeça tornar-se o que foi? Será que, a despeito dos tempos positivistas (ou justo por causa deles), Getúlio sofreu a angústia de harmonizar o passo solto do amor com a marcha tensa do progresso, tal como nós nos afligimos para satisfazer a demanda social por profissionais especializados — especialização que só se consegue com tempo — sem abrir mão dos desejos individuais de conquistas imediatas? No bem documentado trabalho de Lira Neto, infelizmente, não há respostas para essas perguntas. Daí o impulso utilitarista de preencher as lacunas com perspectivas minhas — e, acredito, também de minha geração: os que hoje estão pouco abaixo ou pouco acima dos 30.

Com essa equação de cálculos viciados, tento alcançar um resultado confortável; um que sinalize que tudo vai ficar bem e que, apesar de não sabermos se vamos conseguir tudo a que almejamos, apesar dos desvios dos nossos planos e dos desvios dos planos B, C, D, poderemos conseguir boas coisas, grandes feitos até. Getúlio Vargas é a prova.

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Breno Fernandes, 27, escreve às terças e se angustia com a busca de equilíbrio entre o carpe diem e o winter is coming no resto do tempo.

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