As janelas e as portas estão fechadas, visto uma camisa, um casaco, meias de lã, uma calça 100% algodão, estou enrolado em um cobertor felpudo estampado com pele de onça pintada, e ainda assim sinto frio. Não é exagero, quisera eu fosse uma mentira. Em Porto Alegre o vento é úmido, mesmo a brisa que escapa pelas frestas congela os ossos, e contra isso minha malemolência baiana de nada serve. Ter morado por vinte e seis anos e meio em Salvador não me preparou para as intempéries, não criou a camada extra de resistência necessária para se enfrentar os climas abaixo dos Trópicos, onde no Sol é tri-quente e na sombra é tri-frio. Talvez, um dia, eu goste. Talvez, um dia, eu fique sem camisa em uma arquibancada, à noite, abaixo de zero, com um F enorme pintado com tinta guache no peito, gritando e xingando a mãe de um pobre juiz. Sim, um dia, quem sabe, mas, hoje, ainda não. É impossível que eu goste do frio hoje, porque não bastasse o dia-a-dia à la geladeira, descobri que meus sonhos também estão passando frio.

Meus sonhos, quando estou com frio, são sempre sonhos violentíssimos. Eu sonho bastante – quer dizer, eu me lembro de muitos de meus sonhos – e, em geral, eles são sonhos de ação: Davi correndo na praia, Davi conversando, jogando basquete, às vezes escrevendo, namorando a namorada dengosa que Davi tem, esses sonhos típicos. Mas, quando estou com frio, meus sonhos ganham uma carga de virulência tão absurda que, durante anos, me preocupei se havia um psicopata em potencial escondido em minha personalidade. Um sonho recorrente, por exemplo, envolvia um ladrão tentando invadir minha casa. Ele pulava o muro, corria pelo jardim, eu o interceptava na varada. Depois de uma rápida briga, eu conseguia derrubá-lo e, de repente, agarrando seus cabelos, passava a esmagar sua cabeça no chão, mas realmente esmagar, espremendo o meliante no chão até que seu crânio se transformasse em uma massa disforme.

Em Salvador, esse assaltante se assemelhava a um rapazinho meio inocente, de estatura mediana, espinhas no rosto, sem barba, cabelos castanhos claros. Em Porto Alegre, com o frio, esse assaltante é sempre o Schwarzenegger. Ou melhor, é o Mr. Freeze, o vilão de gelo que Schwarzenegger interpretou no tenebroso Batman & Robin. É o personagem completo, cabeça azul careca, armadura, sotaque de Conan, ele avança pelo meu jardim, lutamos, nos estapeamos, quebramos cadeiras, até que o derrubo e esmago sua cabeça. Desta vez, no entanto, o sonho não termina aí. Como a cabeça do Mr. Freeze é (pelo menos no meu sonho) feita de gelo, quando bato seu crânio na ardósia de minha varanda, ele se divide em inúmeras pedrinhas congeladas, que, após virarem líquido, se reagrupam e formam um novo ser, prosseguindo a peleja. Schwarzenegger incansável, e eu exausto, uma nova briga, uma nova cabeça esmagada, mais um briga, e por aí vai.

Até que acordo com uma sensação extenuada.

E tremendo de frio, descubro que minha namorada não só puxou as cobertas todas para ela, como ainda por cima aumentou a potência do ventilador. Aliás, sobre esse detalhe, eu me esqueci de comentar. Mesmo com 10º lá fora, continuo dormindo com o ventilador ligado – não suporto lugares abafados e o barulhinho ajuda qualquer sono. Bem, ainda não decidi, mas talvez seja hora de desligá-lo, né? Ou então é melhor eu arranjar outro jeito de destruir o Schwarzenegger.

Davi Boaventura treme de frio, quinzenalmente, às segundas-feiras.

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