O senhor preste atenção, da próxima vez que cruzar do Sergipe para a Bahia no rumo de Paulo Afonso, o senhor preste atenção quando passar uma casinha verde que fica na beira da estrada, depois do povoado da Malhada Grande.

O senhor pare o carro na frente da cancela, e bata três palmas e grite a mulher, a dona, ô dona, ô de casa dona, que é para ela vir abrir a cancela, para o senhor poder entrar com o carro lá dentro.

A mulher não vai estar. Mas vão vir os meninos – sete, oito, uma escadinha de não-sei-quantos meninos. Os mais pequenos trotando encapetados, a chinela pé-de-um pé-de-outro rastando poeira do chão, gritando ó, ó os turista, ó os turista. O do meio vai mandar chamar o grande, e o grande vai vir de lá garrado na mão do que é doente, dizendo que mainha não tá em casa não, mas que o senhor espere aí que tem chave, que ele já vai já buscar.

O senhor dê bom dia e entre, e pergunte das pedras. Pergunte ao mais velho se naquelas pedras grandes ali detrás da casa tem alguma coisa pintada, se tem uns desenhos. Tem desenho, uns desenho vermelho tem sim, bem ali, apontará o do meio, com a voz grossa e o tamanho curto de rapazinho sertanejo.

O senhor aí vá, deixe a meninada para trás e vá lá espiar as pedras. Espie nelas aqueles desenhos antigos, dos tempos desconhecidos, aqueles desenhos de coisa de nove mil anos atrás. Não duvide: repare nas placas do patrimônio nacional, que estarão lá para o caso de a crença do senhor necessitar de atestado.

Aí então o senhor sonhe. Sonhe, senhor, viaje no tempo e sonhe com o que aquelas linhas mal-traçadas terão querido um dia dizer. Os três círculos um dentro do outro serão marca de que ali houve um templo em graça do sol da caatinga, ou a prova incontestável do projeto de uma iminente invenção da roda? Os riscos em forma de peixe (ou de oito) serão restos do acerto de contas da pescaria, ou vestígios de pioneiras especulações sobre a infinitude do tempo? E aqueles traços em ziguezague, senhor, que quererão dizer, senão escadas – pendentes ainda de construção, mas certamente escadas mágicas que um dia levariam aqueles homens de nove mil anos atrás ao céu dos deuses astronautas, como diz naquela música?

Emocione-se, senhor. Se puder emocione-se ante a constatação desconcertante de que há muitos miles de anos já havia habitando ali, naquele retalho inóspito de sertão, sob o mesmo solão rutilante deste seu dia de hoje, esse milagre danado que é o ser humano.

Depois o senhor torne ao presente. E fique sabendo, senhor, que um sem fim de pedras que nem aquelas ficou debaixo d’água, sem estudo, nem placa, nem teste de carbono catorze, nem nada quando construíram a represa. E que as que sobraram vão pouco a pouco sendo quebradas e vendidas para a construção civil pela gente que vive hoje na região. E assim seguirá sendo, enquanto a paga pela pedra bruta quebrada for maior que a que se dá pelo fruto da terra cultivada. A placa do patrimônio, enquanto a escola for pouca, senhor, não vai adiantar é de nada. Repare, senhor: passaram nove mil anos, mas o homem de hoje, como o de ontem, continua só se preocupando mesmo é com o tempo presente. Não sei para o senhor, mas para mim ainda estamos na idade da pedra.

Mas, ia dizendo, o senhor torne ao presente, e peça ao menino mais velho que lhe abra de novo o portão, para o senhor ir-se embora. Já tá abrido, ele gritará de lá de dentro. Aí o senhor siga em paz sua viagem, com pesar pelas pedras, mas mais ainda por aquelas crianças, que delas é que o patrimônio nacional não cuida de jeito nenhum.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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