I

Menos de 48 horas depois da consulta, Marcelo entrou na sala de cirurgia, uma cardiopatia grave. Contratou, às pressas, o serviço de uma acompanhante para ter alguém com quem dormir no hospital e cumprir as exigências do plano, mas, nas sete noites juntos, eles conversaram pouco, ele assistiu televisão, leu novelas policiais depois de cinquenta anos sem se interessar pela literatura, ela atualizou o status do Facebook e massageou os pés do paciente, que sonhou com cavalos e jogadores de futebol. Combinaram um programinha para quando Marcelo estivesse bom, que não iria demorar, ele ia ver.

Marcelo voltou para casa no dia de Santo Asuma, padroeiro do tabagismo, atestado para quarenta e cinco dias de repouso. Do trabalho ele queria mesmo se livrar, tudo bem. Ninguém iria lhe visitar, ótimo. Mas, porra, quem é que consegue passar quarenta e cinco dias trancado dentro de casa? Pouco se lixando para as recomendações médicas, menos de uma semana depois de deixar o hospital, ele tentou ir ao cinema. Subiu as escadas da sala arfando, dores terríveis nos pés e no tórax, desistiu ainda no início da sessão. Tomou uma cervejinha na sua varanda e dormiu dezessete horas seguidas.

II

A enfermeira retirava os eletrodos, o médico anotava em uma prancheta: dores, seu Marcelo?, onde?, é?, com que intensidade?, certo, é normal nessa fase, como está o sono?, hum, e o apetite?, ok, é, já era esperado. Agora, seu Marcelo – o médico sentado enquanto Marcelo abotoava a camisa –, eu vou ser sincero com o senhor, o resultado desse eletro não é nada animador. Vamos precisar aumentar a dose de alguns remédios e observar os resultados, e eu quero que o senhor volte aqui já na terça-feira. Isso, isso, depois de amanhã, faremos mais alguns exames, não deixe de vir. Que horas? Bem, vou pedir para lhe ligarem ainda hoje confirmando.

III

Aqui é o Marcelo Ávila. Se eu não te atendi é porque eu não quis te atender, portanto não deixe seu recado após o bipe. E se for a porcaria da secretária do hospital, me deixe em paz, caralho, que eu não suporto mais nem ouvir sua voz.

IV

Não passava nenhum táxi livre, ônibus nem parava no ponto. Marcelo, depois de mandar dois motoristas à putaquepariu, cansado e enjoado pelo sanduíche de pernil da Lanchonete, resolveu arriscar o metrô, mesmo achando uma merda suarenta, claustrofóbica. Por causa da fila, demorou a conseguir entrar no vagão e, quando entrou, se viu imprensado entre dois argentinos cheios de mala, uma menina bonitinha, escondida pelos piercings, e um homem em provável crise de meia idade. Ninguém lhe ofereceu assento – não era possível nem levantar, na verdade. Na estação seguinte o vagão encheu ainda mais, e ainda mais na próxima, beirou um Carandiru na seguinte. E ia lento. Até que, no túnel em direção a sexta estação da linha, em um total de onze, o trem diminuiu, diminuiu, diminuiu, diminuiu, diminuiu e, enfim, parou.

“Senhores passageiros, estamos esperando o deslocamento do carro à frente para prosseguirmos viagem”, anunciou o sistema de som.

Marcelo sentiu vontade de xingar, almadiçoar o transporte público brasileiro, essa merda de país. Mas lhe faltou ar. E ali mesmo ele ficou, em pé, sem ter onde cair.

Davi Boaventura anda de metrô, quinzenalmente, às segundas-feiras.

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