É manhã de domingo, faz um lindo dia, e eu não deveria estar aqui.

Era para estar sentado torto n’alguma cadeira dura, quebrando a cabeça n’alguma questão inútil de prova de concurso para servidor público nível federal.

Mas é que ontem ficamos acordados até mais tarde – bebendo, comendo, jogando, rindo – e por fim fui dormir às duas, sem ter tocado em livro, decidido portanto a perder a inscrição, a não ir.

Mentira: faltei à prova de caso pensado mesmo, já há dias que estava resoluto. Porque essa história de fazer concurso não é só estudar e pegar e sentar e marcar os quadradinhos da prova e pronto, esteja lançada a sorte, feito jogo de búzios ou de tarô, feito oráculo de borra de café.

A gente quando faz concurso público sonha – uns mais outros menos, mas garanto que sonha porque sonhar é condição de humanidade – , e sonho tem hora que não presta para nada senão para tirar a gente do prumo, e cansar e doer inutilmente.

O último concurso que fiz, há uns meses, por exemplo: minha vida aqui nesta beira de Bahia corria, como ainda corre, calma e benfazeja, nem sei porque havia me inscrito no diabo da prova, nem me dignado a estudar não tinha. Ocorre que, já sentado na frente das questões, pareceu-me tudo meio facinho demais – quem sabe se, me esforçando, não acabava passando…

Aí queimei as pestanas e fiz a prova à vera. E logo me vi numa espiral de ansiedade doida nos dois dias que levam até sair o gabarito, depois na contagem dos pontos, e até o prazo dos recursos, e no telefone com os conhecidos que fizeram a prova, e na rede checando o que dizem os fóruns de concurseiros, absorto em miserável expectativa.

Mas o pior não é isso, é a sensação maluca que dá de que a vida que se está vivendo – ainda que calma e benfazeja – entra subitamente em estado de suspensão. E tudo o que se faz, e o que se vive, e as coisas às quais a gente está se dedicando, tudo fica meio amputado de importância, afinal logo pode sair um resultado mágico que nos mandará virar funcionário público no Rio de Janeiro, usando camisa de gola engomada, calça de prega e sapato lustrado, fazendo alguma coisa desimportante para nossa alma nas oito horas do dia em troca daquela graninha mansa que nos permitirá ter nossa banda de rock de porão ou virar um escritor ruim de final de semana.

Até que, por fim, não passei – e a vida, sem nem sequer deixar de ter sido, tornou a ser o que era.

Que triste é isso de sermos uma juventude que sonha assim, com essa ilusão besta de segurança e estabilidade numa tetinha legal do Estado. Não estou aqui dizendo que não iria gostar se tivesse um dia um carguinho bacana para ganhar meu pão honestamente – talvez ainda o faça um dia – mas, ainda assim, reputo como coisa triste participar de uma juventude que sonha de um jeito assim tão pequeno-burguês demais, tão estéril.

E que ninguém por favor se ofenda, porque, se houver culpa por isso, ela reside a rigor menos em cada um de nós que na história de nosso país. Pois pego esta cidade do Salvador por exemplo, e descubro que desde sempre levamos no meio da cara, feito uns Cains, o talho da burocracia, o peso de sermos de uma cidade, de um país fundado e mantido por séculos – arriscaria dizer que até hoje – sob o signo da onipresença de uma máquina estatal ocupada em expropriar-nos, material e espiritualmente, de nossa faculdade de sonhar com mais audácia, mais ânimo, mais graça.

Assim sendo (se assim o for), amiga concurseira, amigo concurseiro, amigo trabalhador em geral da nação, sigamos qualquer caminho que seja, livres porém da ilusão de que a vida seja um grande concurso cujo prêmio resida em chegar, o quanto antes, ao éden na terra que é ter uma vida estável. Porque estabilidade na vida não há: ela é esse vale de lágrimas e de medos, mas também de íntimas e invisíveis alegrias. A vida é lugar e tempo de possibilidades.

Enfim: como é manhã de domingo, faz um lindo dia e desisti do concurso, vou ali cuidar da vida, enfrentar a pilha de pratos que há na pia por lavar.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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